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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2010 | 10h40

E a Mostra terminou ontem, embora de hoje a domingo ainda role a repescagem, que está trazendo filmes importantes em busca de segunda chance (para quem não os viu).  Todo ano, era sempre a mesma coisa – a cerimônia de encerramento era uma comédia de erros, com tantas trapalhadas que mais parecia um script de Blake Edwards para o inspetor Clouseau. Pois, ontem, Leon Cakoff e Renata de Almeida vestiram-se de gala – nunca os havia visto nos trinques, no evento que promovem – e, até por isso (será?), fizeram a mais eficiente cerimônia de encerramento da história da Mostra, que eu me lembre. Teve até emoção – vencedor do troféu Itamaraty de carreira, Carlos Reichenbach subiu ao palco improvisado no páteo da Sala Cinemateca (o que é aquele prédio? Coisa mais maravilhosa) para uma confissão. Vítima de catarata nuclear, ele disse que está dirigindo no escuro, como Woody Allen, e lamentou não poder ver filmes como o segundo vencedor do prêmio da crítica, ‘Carlos’, de Olivier Assayas (o primeiro foi ‘Mistérios de Lisboa’, de Raúl Ruiz). Coincidência ou não, confesso que os ‘segundos’ da premiação final me atraíram mais, não apenas ‘Carlos’, muito melhor do que ‘Mistérios’, mas também ‘Beyond’, de Pernilla August, vencedor do prêmio especial do júri e do de melhor atriz para a excepcional Noomi Rapace. Gosto mais do que de ‘Quando Partimos’, coincidentemente, também realizado por uma atriz, Feo Aladag, e vencedor da Bandeira Paulista de 2010. Num post anterior,  aquele sobre o encontro do zagueiro William com o Alan Parker,  Marcos Anton Nogelli me faz perguntas sobre o prêmio da crítica e também sobre por que São Paulo não tem uma associação de críticos? Existe o colegiado que vota cinema na APCA, mas é reduzido e este ano nunca o quórum foi tão baixo, o que quase inviabilizou a votação. Nos últimos anos, tem havido – e houve em agosto, em Gramado – uma discussão sobre a criação de uma associação que seria (será?) reconhecida pela Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica. Confesso que o assunto não é das minhas prioridades pessoais. Ando muito guerrilheiro, ultimamente, sem paciência para bitolamentos que se manifestam sempre que meia-dúzia de ‘críticos’ se reúnem para debater não importa que filme. ‘Mistérios’ ganhar de ‘Carlos’ é ó, como prêmio da crítica, mas tenho de admitir que, por mais que goste do filme de Assayas (e o amo), minhas preferências iam para o Loznitsa, embora reconheça que ‘Minha Felicidade’ é muito árduo, e no último momento para o ‘Quatro Voltas’, de Michelangelo Frammartino. Disse-me o Thiago (com H) Stivaletti que, no Frammartino, só votamos os dois e o voto dele foi desqualificado, por trabalhar na Mostra (fez o catálogo).  Custa-me crer que, havendo mais de 30 votantes – não estava lá -, ninguém mais jogasse suas fichas no italiano. É que o povo não viu, com certeza. Eu mesmo vi na cabine da Pró-Cultura, na terça (no feriado), pois nem tomara ciência do filme do Frammartino, que passou na Quinzena dos Realizadores, em Cannes.  O que me atraiu foi a foto, folheando o catálogo da Mostra. A partir dela, li a sinopse, pensei que poderia haver ali alguma coisa e havia muita. Meu sexto sentido não me abandonou. Loznitsa, ‘Carlos’, ‘As Quatro Voltas’ estão todos na repescagem. Mexam-se! Vai valer a pena.

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