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‘Sétima Arte’

Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2010 | 11h55

Cheguei de madrugada em São Paulo. O voo saiu com atraso e Natal, como outras praças do Nordeste, não tem horário de verão, o que aumenta a diferença de horário. Terminei desembarcando em Guarulhos às 3 horas e chegando em casa às 4. Não tive muito tempo de postar enquanto estava no Rio Grande do Norte. Já havia estado em Natal anos atrás com a Lúcia, minha filha, quando a cidade era parada obrigatória para quem ia a Fernando de Noronha. Agora, pode-se ir ou se vai, preferencialmente, via Recife. Fui (re)ver sábado à noite ‘Sua Incelença Ricardo III’ e gostei ainda mais. À tarde, o César, integrante do elenco, um dos clowns de Shakespeare, nos levou – a Dib Carneiro e eu – para conhecer o ‘Paulista’. Desde que cheguei a Natal, esse passeio estava prometido. Paulista é daqui, claro, mas vive há décadas em Natal. Tem uma barraca na qual vende DVDs – piratas, a 5 reais – somente de filmes de arte. Espero não estragar o negócio do Paulista, mas ele é um personagem admirável. Sabe tudo de grandes diretores e filmes premiados. Eu próprio fiz umas ‘comprinhas’ – a ‘Medeia’ de Lars Von Trier, ‘A la Ricerca di Tadzio’, de Visconti, ‘Bande à Part’, de Godard. O Éverton trabalha com o Paulista. Me reconheceu, batemos um papo rápido, porque chegamos tarde (e já estava fechando). Lá estava também o Armando, português – conterrâneo e contemporâneo de Ruy Guerra – que sabe tudo sobre Ava Gardner e possui um acervo dedicado à grande estrela. Uma de suas preocupações é o que fazer com esse material que acumulou ao longo de décadas. Num lampejo, ele, que é leitor do ‘Estadão’, me disse que gostaria de doá-lo ao arquivo do jornal. Ao lado da banca –’Sétima Arte’ – do Paulista, tem uma só de DVDs de sexo explícito e atrás outra de cinema de ação, só Stallone, Schwarzenegger, Steven Seagal etc. Cada um na sua. Para quem trabalha com esse negócio de cinema, como eu, sei que me sujeito a desagradar amigos produtores, distribuidores e exibidores, mas há um lado da que4stão que me parece relevante. Natal só tem cinemas em shoppings. Uma olhada nos filmes em cartaz neste momento aponta somente para blockbusters (nacionais, ‘Tropa de Elite 2’, e estrangeiros, ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1’). Como em todo lugar, há em Natal um público de cinéfilos, que quer ter acesso a outras coisas e o ‘mercado’ não as fornece. Não é como São Paulo, que tem a Reserva Cultural, o Belas Artes, o Espaço Unibanco. Paulista tem um catálogo com mais de 500 títulos. Se não tiver o filme que o cliente procura, ele pede um prazo e o consegue. Onde? Tem as suas fontes, conforme me disse, e uma delas deve ser a internet. Pode-se ‘baixar’ hoje praticamente tudo na rede. Dib arriscou uma cobrança – ‘Sétima Arte’, a banca, tem comédias românticas? Só as que passam pelo ‘controle de qualidade’. Genial! Em todo o mundo, encontro esses malucos por cinema. Em Paris, tem aquele cara da butique ‘Reflets Médicis’. O francês é mais apurado, ou então é o fato de me comunicar com ele na língua de Corneille e Molière que faz a diferença. A paixão é a mesma e ambos possuem a mesma alegria em satisfazer o pedido raro, seja de um DVD, em Natal, ou de um livro ou revista, em Paris. Um trabalha no limite da (i)legalidade e essa é a verdadeira diferença. Mas trabalha atendendo a uma demanda que existe. Essa droga chamada cinema… Tenho pendente o compromisso de falar sobre o DVD de ‘Viver a Vida’, de Godard. Me deu mais vontade de falar sobre ‘Bande à Part’. Admiro Godard, mas são poucas coisas dele que ‘amo’. ‘O Desprezo’, as cenas do ‘bando’ correndo no Louvre… Devia ter usufruído mais  os conhecimentos do Paulista. Houve uma espécie de timidez de ambas as partes. Afinal, lhe fui apresentado como crítico do ‘Estadão’. Acho que nos intimidamos e não conseguimos nos soltar na nossa paixão comum. As coisas que a gente não faz…