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Luiz Carlos Merten

24 Dezembro 2008 | 14h18

PORTO ALEGRE – Pegando carona nas lágrimas, que me pareceram sinceras, do Carlos Quintão, provocadas por ‘Marley & Eu’, quero confessar que gostei menos mas chorei mais em ‘Sete Vidas’. A nova parceria de Will Smith com o diretor Gabriele Muccino é f… Os dois já haviam feito ‘O Caminho da Felicidade’, no qual me senti lesado. Não sabia nada do filme nem do personagem, vi a via-crúcis daquele pai, aquele sofrimento todo do Smith para não se separar do filho adorado, e como sou pai caí feito patinho na operação calculada do ator e do diretor para nos fazer chorar. Depois, quando o letreiro informou que a história era real e o personagem de Will Smith é hoje, simplesmente, um dos homens mais ricos do mundo, me senti roubado. Me pareceu uma tentativa tardia de vender os velhos ideais de sucesso e dinheiro do sonho americano. A história até que é válida, estimulante, mas contada de outro jeito. Qual, não sei. Assisti agora a ‘Sete Vidas’ antes de viajar para Porto, numa cabine exclusiva de dois. Alessandro Giannini e eu. Não sabia nada e o Gia também não. O começo deixa a gente desorientado, e é bom, para o envolvimento, que vocês não saibam nada, também. Will Smith exibe suas credenciais de funcionário da Receita Federal dos EUA, aproxima-se de gente necessitada. Lá pelas tantas, o roteiro se fecha – uma imagem aleatória de acidente, um recorte de jornal – e você percebe que ‘Sete Vidas’ tem a ver com um dos temas clássicos de Hollywood, a segunda chance (o outro, de ‘…E o Vento Levou’ e ‘O Mágico de Oz’ até ‘ET’, é a volta para o lar). Achei difícil resistir às cenas e situações criadas por Muccino e Smith para provocar empatia. Tinha momentos em que ambos esticavam tanto a corda que eu dizia – não vou chorar, não vou chorar -, mas fazer o quê. As lágrimas vinham, espontâneas. Vou creditar parte disso à tal reação química que a cirurgia no coração provoca no metabolismo dos safenados. Mas quero ressaltar duas coisas. Will Smith é hoje o maior fenômeno do cinema norte-americano. Desde os protestos dos anos 60, das guerras nas ruas de Detroit e de outras cidades por direitos civis – que pavimentaram o caminho de Barack Obama para a Casa Branca -, Hollywood teve vários astros negros, mas Will Smith é o cara. Nenhum desses branquelos, seja galã ou astro de ação, tem o cacife dele. Tom Cruise, Brad Pitt, Johnny Depp? Não – Will Smith. E o cara é bom como comediante, como herói de ação e como ator dramático. Até hoje tenho ódio do Oscar porque Will Smith não ganhou por ‘Ali’, uma das duas graves injustiças cometidas contra Michael Mann – como a de achar que ‘Beleza Americana’ pudesse ser melhor do que ‘O Informante’… Will Smith é tão bom que leva a gente aonde quer, em ‘Sete Vidas’. E o diretor Muccino? O filme anterior já me dera um pouco essa impressão. Gabriele Muccino – pelo nome, tem de ser de origem italiana – reencarna os truísmos do velho Frank Capra, um autor hoje criticado e até negado, mas que como entertainer continua genial. Veja ‘A Felicidade não Se Compra’ e diga que não é, se for capaz. Pois bem. Will Smith, em ‘Sete Vidas’, me deu a impressão de ser uma reencarnação daquele anjo que resgata James Stewart de si mesmo e mostra como a vida dele é importante no velho, enternamente novo – ‘o’ clássico americano por excelência -, ‘A Felicidade não Se Compra.’

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