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Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2010 | 12h15

Na saída da coletiva da Mostra, ontewm à tarde, passei pela banca em frente ao Conjunto Nacional e consegui comprar a edição de ‘Cahiers du Cinéma’ de julho/agosto. Já disse que coleciono ‘Cahiers’ por hobby – ou obsessão. Tenho todos os números a partir de 1983 ou 84, mas isso não significa que eu leia a revista nem que ela seja minha Bíblia. Fico doenjte quando não encontro o exemplar, isso é verdade. De perto, ninguém é normal. Mas, desta vez, li mais do que em qualquer edição anterior recente. ‘Cahiers’ discute as novas séries da TV dos EUA. Vocês sabem que no planeta Merten não há muito espaço para séries. Não digo isso por orgulho. Não tenho paciência de me prender a um capítulo semanal, dia e hora marcados. Deixei de ministrar cursos de cinema – adorava o contato com os alunos -, porque me sentia preso. Mas vejam como são as coisas. Na sexta, chegado do Festival do Rio, fui cortar o cabelo no Centro. Catei uma ‘Trip’ para ler na cadeira do barbeiro – no Salão Phydias, um dos melhores (o melhor?) da cidade. A edição, não sei se recente, tem a carta do editor e Ricardo Lombardi – com quem trabalhei no ‘Estado’ – chama parfa o trabalho do repórter (não me lembro quem). O cara começa listando as melhores séries atuais.  ‘Mad Men’ encabeçava o lote. Bingo! ‘Mad Men’ é a capa de ‘Cahiers’ e há uma entrevista muito interessanhte com Matthew Wainer, que criou a série. Dei uma olhada e terminei lendo com atenção. ‘Med Men’ é sobre um publicitário, numa agência. A época, os anos 1960. ‘Cahiers’ faz a pergunta inevitável, que eu faria a Matthew Wainer, independentemente de assistir à série, ou não. Essa coisa de publicidade, a América consumista, que vivia os mitos do sucesso e do dinheiro, tudo isso se constituía no material dos melodramas de Douglas Sirk, que contava histórias de família jusatamente para colocar esses (não) valores em discussão. A pergunta que não quer calar – Douglas Sirk foi uma referência para ‘Mad Men’? Matthew Wainer diz quer não discute a qualidade de Sirk, mas não é um autor pelo qual se interesse muito. Ele se interessa muito mais por Stanley Kubrick, mas a referência, ele diz que pode confessar a ‘Cahiers’, foi ‘Les Bonnes Femmes’. Quase caí do sofá em que lia a entrevista. Ao redigir o necrológio de Claude Chabrol, cheguei a listar ‘Les Bonnes Femmes’ como um de seus melhores filmes (o melhor?) na fase anterior à explosão do biênio 1969/70, mas depois acho até que tirei o filme, que nunca foi lançado no Brasil (a menos que tenha sido em DVD e eu não saiba) e permanece como um de seus títulos mais secretos. Há um culto a ‘Les Bonnes Femmes’. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, diz que é com este filme que o traço de Chabrol se torna mais firme, após ‘Nas Garras do Vício’ e ‘Os Primos’. Robin Wood e Michael Walker morrem de amores por ‘les Bonnes Femmes’ e fazem uma deslumbrante análise da cena do zoológico (citada por Tulard em seu verbete). Comecei a achar que esse ‘Mad Men’ talvez valha mesmo a pena, até porque Matthew Wainer cita ‘Intriga Internacional’, de Alfred Hitchcocvk, de 1959, sobre outro publicitário (o Roger Thornhill de Cary Grant) como a unanimidade da equipe criadora da série. Só para constar. A edição inclui entrevistas com Agnieszka Holland, a quem dei uma capa recente no ‘Caderno 2’, por sua minissérie sobre a política polonesa, no Eurochannel, e Juan José Campanella, assinalando que o diretor argentino vencedor do Oscar (‘O Segredo de Seus Olhos’) tem larga experiência em séries na TV dos EUA. Muito interessante, realmente. Vocês assistem a ‘Mad Men’? E ‘Breaking Bad’, que ‘Cahiers’ também põe nas nuvens?