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Cultura » Será? (ou é melhor ‘Não gostei’?)

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Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2008 | 12h04

Na seqüência de ‘El Greco’ fui ver à noite, no Arteplex, ‘Todo Mundo Tem Problemas Sexuais’, de Domingos Oliveira. Havia perdido o filme no Festival do Rio, como contei aqui. Fui ver a apresentação, só por ver, porque sabia que não poderia ficar – era minha última chance de ver, no mesmo horário, ‘Canção de Baal’, de Helena Ignez. A apresentação de ‘Todo Mundo’ virou o factóide do Festival do Rio 2008, quando o ator e produtor Pedro Cardoso leu seu manifesto contra a pornografia, atacando o nu no cinema brasileiro. Não embarquei naquela viagem, e até acho que os coleguinhas superdimensionaram um debate que, pelo visto, já está morto e enterrado. Mas, enfim, pensei que conseguiria recuperar ‘Todo Mundo’ no dia seguinte, ou no próximo. Não deu. Terminei assistindo ao filme no sábado à noite, sentado na primeira fila, porque a sessão estava cheia (e eu cheguei em cima da hora). Do ponto de vista da linguagem, achei bem mais interessante do que ‘Juventude’ ou qualquer outro dos filmes recentes de Domingos. Aquela coisa de misturar o relato naturalista com imagens da encenação teatral que foi laboratório para o elenco me pareceu bem inteligente. Mesmo assim, no limite, não gostei, e não foi por nenhuma implicância com o diretor de ‘Todas as Mulheres do Mundo’, ‘ Edu Coração de Ouro’ e ‘As Duas Faces da Moeda’. Domingos já foi melhor, até porque naquela época, seu cinema falado, de discussão sobre a classe média, representava alguma coisa (inovadora? subversiva?) num cinema brasileiro – o Novo – que queria ser revolucionário e minimizava as relações interpessoais, como se tivesse medo de falar do amor. A linguagem me atraiu, portanto. O problema foi – linguagem a serviço de quê? Achei meio irrelevante a discussão sobre nudez como pornografia e espero não ser chamado de moralista pelo que vou dizer agora. Fui até ao Aurélio para ver a definição de ‘pornografia’. Tratado sobre a prostituição, gravura, imagem ou publicação obscena. Fui ver o ‘obsceno’ é é atentatório ao pudor, torpe. Fiquei pensando cá com meus botões se não seria muito mais pornográfico ver Pedro Cardoso repetir 500 vezes a palavra ‘piroca’ e cada vez que ele a pronunciava a platéia vinha abaixo (no teatro dentro do filme como no próprio cinema). Aquilo foi me aborrecendo. Me pareceu muito fácil, como recurso ‘estético’ (é besteirol ou não?) e eu fiquei me perguntando se não seria tão ou mais pornográfico do que os nus que ultrajam a honra de Pedro Cardoso. É uma coisa que, aliás, me intriga bastante. Não estou falando do ‘Hamlet’ de Wagner Moura, que é outra coisa, mas é rara a peça com global que não tenha palavrão. ‘Cara…’, ‘pqp’, essas coisas. A platéia de classe média que não está acostumada a ouvir eles dizerem essas coisas nas novelas sempre fica meio histérica. Foi o que ocorreu de novo. ‘Todo Mundo Tem Problemas’ gira em torno do falus, do pênis. ‘Phallic Frenzy’, como o título do livro sobre Ken Russell que estou acabando de ler. Um frenesi fálico. Cada vez que aparecia uma das ilustrações do ‘bráulio’ era uma festa e o ‘episódio’ que começa com Pedro Cardoso pedindo a Cláudia Abreu que lhe enfie primeiro um, depois dois e finalmente três dedos levou aquela gente toda ao orgasmo. Não estou reclamando. Todo mundo tem problemas e cada um sabe como relaxar para gozar. Só fiquei pensando – nu é pornográfico e aquilo não? Será?