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Luiz Carlos Merten

29 Fevereiro 2008 | 10h00

Fui rever ontem à noite ‘Senhores do Crime’. Estou em choque até agora. Havia gostado (muito) do filme de David Cronenberg, que vi nos EUA. Não havia revisto no Brasil. Saí do cinema fora de eixo. Que coisa mais radical! E o Cronenberg entendeu, no cinema, melhor do que ninguém, a alma russa. A cena da festa é exemplar, com aquela cantoria ‘de dentro’. A trilha do Howard Shore, por sinal, é magnífica. A parceria dele com o Cronenberg é de uma riqueza ímpar. Enfim, o que o Cronenberg diz, e mostra, dos russos é que certas características deles independem de regime, não importa que seja czarismo, comunismo, capitalismo. Os russos são capazes de grande delicadeza e de uma brutalidade animal. A perturbação que o filme me produz vem dessa constatação. Eu, que adoro a catarse proporcionada pela violência na tela – devo ter algum demônio aprisionado dentro de mim -, acho a cena da sauna uma coisa de louco, mas ela me incomoda tanto que eu pulo na poltrona. Devo ter dado vexame para quem via o filme comigo ontem. Aliás, terminou a sessão – havia um pessoal do jornal comigo, Antônio Gonçalves Filho, Dib Carneiro neto e Camila Molina – e já me cravaram a pergunta. Eu ainda achava que o Viggo Mortensen é melhor do que o premiado (com o Oscar) Daniel Day-Lewis? Vou responder de forma diferente. Gosto mais do filme do Cronenberg do que do de Paul Thomas Anderson (que também é bom). Gosto mais de personagens atormentados, divididos, como o Nikolai de Viggo Mortensen do que o maléfico e megalomaníaco Day-Lewis de ‘Sangue Negro’. Por mim, cobria ‘Senhores do Crime’ de Oscars, mas o filme nem foi indicado. Daria até o Oscar de trilha, o único que ‘Desejo e Reparação’ ganhou (e eu fico escandalizado quando ouço o que dizem do uso que Dario Matrianelli faz das teclas do piano para recriar, musicalmente, o martelar das teclas da máquina de escrever).

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