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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2010 | 10h16

Fui ver ontem ‘Sempre ao Seu Lado’. Foi, aliás, uma experiência curiosa no Unibanco Arteplex do Gay Caneca. ‘Lula, o Filho do Brasil’ tinha meia casa (me informei), ‘Nova York – Eu te Amo’ tinha a maior fila para a sessão das 10 (22 horas) e eu tomei um susto quando entrei na sala que exibia o filme de Lasse Hallstrom com Richard Gere. ‘Sempre ao Seu Lado’, cujo título original é ‘Hachiko – A Dog’s Story’, está na sala 3, uma das maiores do conjunto. Entrei e haviam quatro pessoas. Quando o filme já estava começando entraram mais três e, com o filme já iniciado, mais uma. Éramos nove, no total. O novo filme de Hallstrom faz lembrar ‘Minha Vida de Cachorro’, que deu projeção internacional ao diretor sueco há 25 anos, quando ele foi indicado para o Oscar. ‘Minha Vida de Cachorro’ era sobre aquele menino sueco que acompanhava a trajetória de Laika, a cachorra que os soviéticos lançaram ao espaço – o primeiro ser vivo num vôo orbital – e que foi sacrificada em nome da ciência. ‘Hachiko’ agora tenta ver o mundo pelos olhos de um cachorro. Este cão é de uma raça especial, japonesa, e vai parar numa estação de trens, numa pequena cidade norte-americana. Logo de cara, Hachi seleciona seu dono, e é Richard Gere. A história é contada pelo neto de Gere na sala de aula. O tema é o heroísmo e o garoto vai tentar explicar porque seu herói é um cão. No começo, os colegas riem, mas no final está todo mundo chorando com a fidelidade de Hachi, como é chamado. A história é real e ocorreu no Japão. Já a conhecia. Na primeira vez que fui a Tóquio, em 1995, o Festival Internacional de Cinema ocorria em Shibuya e a gente – éramos um grupo de umas dez pessoas, incluindo os cineastas Walter Hugo Khouri, Ana Carolina e Carlos Reichenbach – passava muito por aquela estação. Na porta, existe a estátua do cão. Contaram-me a história do cachorro que sempre esperava o dono, na volta do trabalho. Ele morreu e Hachi, durante nove anos, manteve guarda, à espera de quem nunca mais ia retornar. De volta a Tóquio, na junkett de ‘Homem Aranha 3’, fui várias vezes a Shibuya. O metrô de Tóquio me pareceu muito complicado, com tarifas diferenciadas, mas eu aprendi a ir a Sibuya e lá ia eu, a toda hora. Numa dessas vezes, me aventurei a tocar a estátua de Hachi, embora isso não faça parte do protocolo japonês. (Lembro-me do espanto de Eizo Sugawa, o grande diretor, quando aquela brasileirada queria abraçá-lo e beijá-lo, por pura reverência a seu gênio, há 15 anos.) O cão de Richard Gere agora o espera durante dez anos. Hallstrom é um bom contador de histórias tradicionais. Ele consegue, inclusive, tornar palatáveis, para a indústria e o grande público, temas muitas vezes difíceis. Seus filmes já falaram de incesto, estupro, droga, morte etc. É fácil entender por que Gere, ligado ao budismo, portanto, à cultura oriental, ligou seu nome ao projeto. Mas Hallstrom, que às vezes me envolve, dessa vez exagerou. Sugiro que vocês não leiam mais, a partir daqui, se ainda não viram o filme. Não quero tirar a graça de ninguém, muito menos dos cinófilos, aos quais ‘Sempre ao Seu Lado’ se destina. Leiam depois. Vendo o filme pelos olhos do cachorro – em cenas em preto e branco que quebram o colorido de ‘Sempre ao Seu Lado’ -, Hallstrom optou por encerrar a história de Hachi com um vôo na espiritualidade, o reencontro do cão fiel com seu dono. Estava achando curioso. Afinal, um filme com Richard Gere em que ele morre na metade, ou um pouco depois… Mas o Hallstrom perde a mão no desfecho, embora o próprio Gere talvez tenha embarcado na produção por causa daquelas cenas. Havia revisto na TV ‘Chocolate’ e ‘Um Lugar para Recomeçar’ e o segundo, especialmente, tem coisas que me tocam – toda a relação de Robert Redford com Morgan Freeman, o reencontro desse último com o urso que o mutilou etc. ‘Sempre ao Seu Lado’ também tem coisas lindas. Richard Gere virando criança de novo, ao tentar ensinar seu cão a buscar a bola, e o reencontro de Joan Allen, a viúva, com Hachi, já velhinho, dez anos depois. Já disse que o tema da morte foi dominante no cinema em 2009. Viver e morrer no cinema, como fatalidade biológica e/ou metáfora. ‘Sempre ao Seu lado’ se inscreve na tendência, mas com pesar tenho de admitir que não gostei, não.