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Semana (2)/Em defesa do ativismo

Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2017 | 11h40

RIO – Paralelamente à programação de filmes, a Semana realiza debates que são sempre interessantes. Ontem à tarde tinha textos para as edições de fim de semana do Caderno 2, entrevistas para fazer – com o diretor de Patti Cake$ – e a consequência foi que perdi o primeiro debate realizado no Centro Cultural Olho da Rua. Cinema e Viodeoativismo – Imagens de Resistência. No fundo, é disso mesmo que tem tratado a Semana deste ano, com tantos filmes que colocam em discussão as estruturas de poder no País e a representatividade popular. Existem histórias que, ainda bem, o cinema está contando – a de Real Conquista, o curta documentário de Fabiana Assis, com uma personagem guerreira das lutas de Goiás. Só como curiosidade, fui fazer uma pesquisa, buscando críticas a Operações para Garantia da Lei e da Ordem. Achei o filme muito criativo e instigante, e por isso mesmo fiquei surpreso com o que li em sites de cinema. A maioria critica o engajamento do filme, sua militância, e acusa a dupla de diretores de autoritarismo. Ao tomar partido no filme, utilizando reportagens ‘alternativas’ para contestar o discurso oficial, Júlia Murat e Miguel Ramos estariam sendo ‘parciais’, exatamente como acusam a grande imprensa de ser. Esse tipo de ‘isenção’, cobrado pela ‘crítica’, me pareceu, pior que ingênuo, de uma estupidez acintosa. Tergiversando, vi a chamada de capa de Veja da semana passada, sobre o episódio envolvendo William Waack na Globo. Tentei ler, mas o texto era uma coisa meio Frankenstein, falsamente analítico e isento, mas no fundo destilando a cada parágrafo a ideologia da tal publicação. Passo anos sem ler a revista, e aí quando tento ler algum exemplar me dou conta de que, em nome da sanidade, tenho de passar anos ignorando, de novo. Havia outro texto, sobre as manifestações contra Judith Butler, e de novo baixou o espírito Frankenstein. O texto só servia para lembrar manifestações da esquerda contra aquela blogueira cubana, quando visitou o Brasil. Viraram a mesma coisa, Judith e Yoani, direita e esquerda e isso em nome de uma tal objetividade jornalística que há décadas foi banida da casa. Ah, V… Para hoje à tarde haverá outro debate, e a esse pretendo ir. A Igualdade É Branca – Raça e Poder, às 14 h. É outro tema da maior atualidade – nos filmes da Semana e na realidade brasileira, às vésperas de mais um 20 de Novembro, quando se comemora a consciência negra. O Centro do Rio estava ontem conflagrado por causa da votação na Alerj. Pau nos manifestantes e votação relâmpago, um horror, mas não sei por que as pessoas de bem se horrorizam. O Congresso tem feito isso, na maior cara-dura, nas votações pró-Temer, e todo mundo finge que é legítimo. Peguei ontem um ônibus na esquina da Presidente Vargas para tentar ir até a Cinelândia. Como a cidade estava daquele jeito – transito lento, etc -, fiquei ouvindo algumas pessoas a reclamar em voz alta, pedindo o retorno dos militares. Naquela época é que era bom, não é senhor?, me perguntou um velho, crente de que só por ter cabelos brancos seríamos todos reacionários. Eu fora, compadre. Aliás, fiquei sabendo que Maria Augusta Ramos conseguiu apoio da Berlinale para seu próximo documentário, sobre o impeachment da presidenta Dilma Roussef. Até ficar pronto, Temer já estará fora do poder e provavelmente preso, se prevalecer o que ouço. Que a instituição da presidência está sendo preservada e que o homem terá de responder por seus crimes depois. Será mesmo? Na segunda, haverá um terceiro debate – Periferia, Negritude e Experimentação no Cinema do Século 21, sobre os novos territórios e agentes da produção audiovisual brasileira, como os Irmãos Carvalho. Infelizmente, já estarei de volta a São Paulo – regresso na segunda pela manhã. Mas seria, com certeza, outro debate necessário para acompanhar. Seria, não. Será.