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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2009 | 16h45

Estou saindo para ver um filme, mas gostaria de falar rapidinho sobre a sessão de ‘De Repente, Califórnia’, que vi ontem à noite, no Unibanco Arteplex. Nunca vi uma coisa daquelas. Segunda-feira, 21h30, a sala estava cheia. Tive de dar um carteiraço, explicando ao gerente que tinha de ver o filme para escrever um texto na edição de amanhã do ‘Caderno 2’. Aliás, leiam amanhã a minha capa ‘Luz, câmera… e diversidade’, que mistura o filme gay de Ana Paula Arósio, cujo set visitei no Rio, mais dois filmes de Cannes sobre os quais não havia falado, ‘Humpday’ e ‘Eyes Wide Open’. O cinema que sai do armário… Um bom tema para tratar às vésperas da parada do orgulho gay. Sentei-me ontem na primeira fila. Vi o filme meio de lado e em contra-plongé, de baixo para cima. Não gostei muito de ‘De Repente, Califórnia’, não. É meio conto de fadas, uma comédia romântica que aplica a rapazes as fórmulas normalmente utilizadas para rapazes e moças. Em vez de ‘boy meets girl’, temos ‘boy meets boy’. Muito entardecer, diálogos banais e, principalmente, muito plano/contraplano. Demais para o meu gosto. Já não gostei de ‘A Mulher Invisível’ por causa disso. Como a personagem de Luana Puiovani é uma fantasia, uma invenção de Selton Mello, Cláudio Torres narra o filme todo em plano/contraplano. No plano, Selton. No contraplano, Luana (e vice-versa). Ocasionalmente, o plano geral, mostrando os dois juntos, como Selton acredita que está ocorrendo, ou então, só ele, como as pessoas o vêem de verdade. Aquilo me derrubou. Sem a auto-ironia de Luana, que sabe usar sua persona melhor do que ninguém, acho que teria sido insuportável. ‘De Repente, Califórnia’ me exauriu. Até entendo a simpatia pelo filme, porque os personagens são todos do bem – até os ‘ruins’ – e o herói merece aquele namorado para cuidar dele. Ele ganha tudo – um romance, uma carreira, um filho! Legal, mas se fosse uma comédia hetero todo mundo reconheceria a banalidade. A plateia, sem preconceito nenhum – é constatação -, era predominantemente masculina e, pelos momentos em que ria, gay. A piada do ‘suck and swallow’ foi a preferida. Havia uma mulher (uma!) em toda a sala. A Califórnia era ali mesmo, no Gay Caneca. Lembrei-me de ‘Thelma e Louise’, cujo feminismo consistia em fazer com que as personagens de Susan Sarandon e Geena Davis reproduzissem a trajetória ‘libertária’ (ou violenta) dos homens. O orgulho gay também consistirá em fazer de dois caras uma Jennifer Aniston com pinto à espera de príncipe encantado. E quem? Brad Pitt?