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Luiz Carlos Merten

23 Maio 2007 | 20h46

CANNES – É incrível, mas passados mais de 70 anos – 76, para ser mais exato -, o enigma de Limite continua desafiando o público. E olhem que não era um público qualquer. Boa parte da intelligentsia cinematográfica brasileira foi ver o filme de Mário Peixoto na seção de Cannes Classics. Críticos e historiadores de todo o mundo – Thierry Frémaux identificou alguns – estavam presentes na Sala Buñuel. Walter Salles fez uma bela apresentação – num francês impecável – preparando a platéia para o desafio de um filme que era de vanguarda em 1931 e, pelo visto, continua adiante. Houve uma debandada incrível. Muita gente saiu da sala e, quando digo muita, não estou exagerando. Mas tive algumas surpresas gratificantes. A mãe de Michelle de O, que nos trata tão bem na sala de imprensa, veio de Nice só para ver Limite e encantou-se. Não é nenhuma especialista, mas é cinéfila, e isso basta. Sempre tive resistência a Limite. Quando ouvi falar no filme pela primeira vez, nos anos 60, acho que na idade que Saulo Pereira de Melo tinha ao se apaixonar por Limite – 17 anos -, o pessoal do Cinema Novo, querendo construir uma nova história do cinema brasileiro, dizia que o filme encarnava o mito do cinema burguês no País, em oposição ao cinema do povo que eles queriam fazer. O desafio de Limite é que ele trata da finitude humana, como disse Walter Salles, mas não é propriamente linear. É complexo, intrigante. Mário Peixoto tinha o quê? 20 anos? 20 e poucos? O espectador tem de construir, naquelas imagens, uma história. E que imagens! Existem momentos de grande beleza que me fizeram pensar. Edgar Brazil era um dois maiores diretores de fotografia do mundo em 1931. Imagens como as de Limite, sei lá, eram e continuam sendo raras. Tivemos depois outros grandes fotógrafos – Luiz Carlos Barreto, Dib Lutfi, Afonso Beato. Temos hoje Walter Carvalho. Limite ainda não me emocionou, apesar da música de Erik Satie, César Franck, Stravinski, Prokofiev e outros grandes. Mas sinto que penetrei mais no mistério do filme. Ele coloca uma problemática do tempo. Waltinho contou aquela história do Mário Peixoto, que lhe disse para prestar atenção no ponteiro de segundos do relógio. Quando ele avança, parecendo dizer mais, mais, mais, na verdade está dizendo menos, menos, menos. Isso vale para a vida, mas também para o cinema que Mário Peixoto queria fazer. Já é de madrugada aqui em Cannes. Preciso dormir para levantar cedo (daqui a pouco) e ver Alexandra, de Alexander Sokúrov. Espero ainda ter, antes de dormir, uma conversa de travesseiro, comigo mesmo, sobre LImite. Boa noite!