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Luiz Carlos Merten

07 Abril 2012 | 09h23

PORTO ALEGRE – Olá! Aqui estou, desde quinta. Vim num voo no final da manhã, cheguei à tarde e, desde então, tenho zanzado pela cidade, nos intervalos das matérias qyue tenho enviado para o ‘Estado’. Faz dias que não dou notícias, e não por falta de posts que gostaria de acrescentar. Não falei nem de ‘Vermelho’, a peça que vi no domingo passado. Vocês não sabem que fui ao show do Roger Waters, ‘Pink Floyd – The Wall’, para fazer matéria. Jotabê Medeiros, desde que assistiu a ‘The Wall’ no Chile, me dizia que era coisa de cinema. Júlio Marias, editor do ‘Caderno 2 Música’, confirmou-o e me encomendou a matéria que está hoje no jornal. Uma coisa de cinema, assim de Steven Spielberg e Michael Bay. Tenho de fazer minhas confissões sobre ‘The Wall’, e Roger Waters, mas vou deixar para daqui a pouco. Agora, quero ver se recupero o texto que, mentalmente, fiz várias vezes ao longo da semasna. Nem me lembro mais o dia, mas o Canal Brasil tem feito a revisão da obra de Roberto Farias. Exibiu ‘Assalto ao Trem,Pagador’, ‘Pra Frente Brasil’, a trilogia com Roberto Carlos. O canal brasileiro resgatou até ‘Selva Trágica’. É o meu filme preferido do diretor/autor, talvez seja o ‘meu’ cult do cinema brasileiro de qualquer época, como ‘Rocco’, de Luchino Visconti, é o meu filme mais amado, tout court. O texto do jornal, nos limites de um verbete nos filmes na TV, propunha uma espécie de síntese. Lembro-me que me causou grande espanto – estupor – quando li na Enciclopédia do Cinema Brasileiro a apreciação sobre Roberto Farias. O autor do texto definia ‘Selva Trágica’ como ‘hawksiano’ e eu, mesmo amando Howard Hawks e respeitando que cada um recrie os filmes segundo sua sensibilidade, até hoje me espanto. O cinema de Hawks é, todo ele, um elogio ao profissionalismo do trabalho, qualquer que seja, e ‘Selva Trágica’ é um filme, uma tragédia moderna, sobre a utilização do trabalho escravo do homem e a objetalização da mulher, por meio da prostituição. Isso é Visconti, e é ‘Rocco’. Havia encontrado João Moreira Salles no evento de ‘Cabra Marcado para Morrer’ na Cinemateca e me veio o insight. ‘Selva Trágica’ representa a porção ‘Rocco’ de Visconti no cinema do País, como João, filho de banqueiro, no filme do mordomo, ‘Santiago’, encar(n)ou a vertente aristocrática, mais ‘Vagas Estrelas’ ou ‘Ludwig’, pela própria personalidade tortuosa do sujeito (objeto?)  de suas indagações, do que ‘O Leopardo’. Mesmo me arriscando a levar pedradas, mas não será a primeira vez, digo/repito que ‘Santiago’ é meu documentário brasileiro favorito, o que mais amo – e estou disposto a defender sua complexidade psicanalítica, estética e sócio-política, mas nem preciso fazê-lo porque o texto de Enéas de Souza é definitivo sobre o assunto. Da mesma forma, posso entender e aceitar as reações de entusiasmo, que compartilho, pelas obras definidoras do Cinema Novo – ‘Vidas Secas’, ‘Deus e o Diabo’ e ‘Os Fuzis’, de Nelson, Glauber e Ruy Guerra, mas nunca vou esquecer a emoção que tive garoto, num sábado à noite, indo ver ‘Selva Trágica’ no Presidente, um cinema que nem existe mais aqui em Porto,. com minha irmã e cunhado, a Marlene e o Mário. Foi um choque e até hoje me assombra a câmera rente ao chão, captando o esforço do changa-y para levantar aquela carga de erva-mate, sob a música dilacerante de Remo Usai. Gostaria de ter revisto, mesmo que fosse na TV, o ‘Selva Trágica’. Sempre que encontro Roberto Farias cobro dele o lançamento de DVD, quem sabe o restauro de ‘Selva Trágica’. Embora ele goste do filme, sinto que tem um sentimento meio ambivalente em relação a ele. ‘Selva Trágica’ seria uma espécie de filme bastardo. Farias investiu energias, talento e dinheiro – que ganhara com ‘Cidade Ameaçada’ e ‘Assalto ao Trem Pagador’. O filme foi um fracasso de bilheteria. Muito deprê para o grande público que havia adorado os filmes policiais anteriores, demasiado clássico, ‘viscontiano’, para atrair o público seletivo que prestigiava a eclosão do Cinema Novo. Há 50 e tantos anos (57?), nunca deixei de amar ‘Selva Trágica’.