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Luiz Carlos Merten

12 Agosto 2008 | 09h52

GRAMADO – Confesso que não entendi muito bem o ponto do filme argentino ‘Por Sus Proprios Ojos’. É uma ficção com elementos de documentário, sobre garota que realiza um trabalho de final de curso. Ela escolhe o formato de um documentário sobre mulheres de presos, envolve-se com a complicada mãe de um deles e, no limite, se envolve sexualmente com o cara, num beco do qual a diretora Liliana Paolinelli não encontra a saída. Em matéria de documentário puro, vi um aqui em Gramado, anos atrás, sobre mulheres de presidiários que ia mais à essência. Como ficção, ‘Leonera’, do Pablo Trapero, também sobre o universo carcerário, que vi em Cannes, não tem comparação – é muito melhor. Na seqüência, passou o longa brasileiro ‘Vingança’. O diretor Paulo Pons desembarcou aqui com seu elenco – muita gente jovem e bonita – e uma proposta. Depois do BOAA, o cinema de baixo orçamento e alto astral de Domingos de Oliveira, com seu perfil confessional, Paulo propõe agora o BXX, como já andaram definindo, o baixíssimo orçamento, mas não em formato de cinema confessional e sim, narrativo. É um policial ‘psicológico’, de olho no mercado. ‘Vingança’ é o primeiro de quatro filmes – orçamento de R$ 80 mil – que o diretor produz com sua equipe, todos muito animados. Não sei nem o que dizer, para ser sincero. O filme é razoavelmente bem feito, mas não é nenhuma obra de arte. Não inventa nem inova nada em termos de narração e até se preocupa em evitar que o espectador perceba a modéstia com que foi feito. A idéia me parece justamente oposta – ‘limpar’ o cinema de baixo orçamento de seu caráter um tanto amadorístico, propondo um produto bem acabado. Deixando de lado um certo artificialismo, que a maioria dos policiais brasileiros tem – estou deixando de lado ‘O Assalto ao Trem Pagador’ e ‘O Bandido da Luz Vermelha’ – e também o fato de que a platéia ria nas cenas dramaticamente mais intensas – como quando Zé de Abreu, na pele de um gaúcho macho barbaridade, desencadeia uma reviravolta na trama -, não creio que ‘Vingança’ seja um filme de festival, mas, enfim, a seleção, pelo menos neste começo, está estranha. Tem um conceito – a tal tensão entre tecnologias tradicionais e novas -, mas, por enquanto, o quesito ‘qualidade’ anda deixando a desejar. Vamos esperar.