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Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2007 | 11h14

Nada pior quando um diretor vira ‘gênero’. Altman, Lynch que o digam. Prefiro os que ousam, mas não sempre na mesma linha (e o mesmo tipo de ousadia que vai ficando ‘programado’). ‘I’m Not There’ não me impressionou tanto, mas é um filme de Todd Haynes e eu adoro ‘Velvet Goldmine’, o ‘Cidadão Kane’ do glam rock, e ‘Longe do Paraíso’. Fiquei um pouco desconcertado, para não dizer decepcionado, pela maneira como ele desconstrói Bob Dylan no novo filme. ‘Velvet’ já fazia isso, mas agora Haynes constrói seu quebra-cabeças usando vários atores no papel. É interessante, mas não consegui entrar no clima. Talvez, vamos admitir, não tenha ‘entendido’, como se diz, vendo o filme numa enxurrada com vários outros, no Festival do Rio. Existem obras que demandam uma decantação maior. Pode ser o caso de ‘I’m Not There’- e eu até espero que seja isso. Não gostei de ‘Angel’, do François Ozon, pelos mesmos motivos pelos quais gostei de ‘Desejo e Reparação’. O filme conta a história dessa autora de literatura cor-de-rosa, mas me pareceu muito diluído, o que o discurso sobre o cinema impede que ocorra com o filme de Joe Wright. De comum entre os dois, existe a atriz Romola Garai, a Angel de Ozon e a menina de 13, quando chega aos 18, de Wright. E o curioso é que tenho de admitir que, mesmo não tendo gostado do primeiro filme em língua inglesa do Ozon, ele ficou comigo e eu me pego pensando em momentos que me pareceram muito interessantes, justamente pela abordagem da sociedade de classes inglesa (tema que também está em ‘Desejo e Reparação’). Gostei muito de ‘Do Outro Lado’ e até esperava ver o Fatih Akin receber a Palma de Ouro deste ano – ou no mínimo o prêmio de mise-en-scène, mas o júri preferiu lhe ofertar o de roteiro -, depois do Urso de Ouro por ‘Contra a Parede’. E tem ‘As Testemunhas’, de André Téchiné, que fala sobre aids. Téchiné, que é gay assumido sem ser militante, tem abordado muito a questão do homossexualismo. Aqui, ele fala sobre o impacto que a aids teve sobre uma geração que ainda desfrutava a liberdade sexual dos anos 60. ‘As Testemunhas’ não fala só sobre homo. Encara o bissexualismo e é preciso ser muito macho, como dizia Rodrigo Santoro ao fazer o travesti de ‘Carandiru’, para tentar repetir o Sami Bouajila deste filme. Você pode até não se lembrar dele pelo nome, mas é um dos atores ‘árabes’ mais conhecidos do cinema francês. Faz sempre o durão. Aqui, ele é casado com Emmanuelle Béart, uma das atrizes-fetiche de Téchiné (com Catherine Deneuve). Sami se envolve com esse garoto que vem do interior para tentar a vida em Paris e vira amante do médico Michel Blanc. Numa cena punk, Sami pede ao garoto… Parando – vejam o filme para saber o que ele pede. E vejam, nem que seja pela cena da passagem para o outro lado. O cinema tentou muitas vezes expressar a morte. A metáfora de ‘As Testemunhas’ é tão bela quanto triste. E a verdade é que na geração de Téchiné, como na minha, a gente sempre carrega amigos que morreram de aids. Não se assiste a um filme como este impunemente.

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