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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2007 | 09h51

Enfim, chego agora ao post que queria redigir desde ontem, quando postei o texto sobre Amante Muito Louca. Acho que era só pretexto para chegar a este. Ao falar de Kazan, de Teresa Rachel, estava falando de uma coisa que me toca muito, que é a segunda chance. Acho que existem dois grandes temas que são dominantes no cinema americano – a volta ao lar e a segunda chance. De …E o Vento Levou e O Mágico a ET e Apollo 13, passando por um milhão de filmes que não vale a pena citar, o tema da volta para casa se tornou mítico na produção de Hollywood. A segunda chance, então, tornou-se banal, onze entre dez filmes tratam disso, de uma forma ou outra. Banalização à parte, a segunda chance é o tema que percorre e dá unidade à obra de um diretor que carrego no meu coração, Richard Brooks. Ele foi marido de Jean Simmons. Rubens Ewald Filho me contou como foi bonito o dia em que realizou o sonho dele de entrevistar Jean (seria o meu, também…) e, ao falar sobre Dick Brooks, ela desfiou o que era uma linda história de amor. Brooks rrealizou grandes adaptações de Tennessee Williams (Gata em Teto de Zinco Quente e O Doce Pássaro da Juventude), mesmo que tenha edulcorado o dramaturgo, ao não encarar o tema do homossexualismo masculino que está na essência do personagem de Paul Newman no primeiro. Ele também fez uma forte adaptação de Sinclair Lewis, denunciando o charlatanismo religioso em Entre Deus e o Pecado, que deu o Oscar para Burt Lancaster. Mas os filmes de Brooks que prefiro são os que formam uma trilogia informal – Lorde Jim, Os Profissionais e À SAngue-Frio. Lord Jim baseia-se no romance de Joseph Conrad e Peter O’Toole faz o marinheiro que, tendo tido medo diante de uma ameaça de naufrágio, foge deixando à deriva uma embarcação cheia de gente, o Patna. Mas o barco não vai a pique, os passageiros são resgatados e Jim vira uma alma penada em busca de redenção, que acha no Patusan (Patna, de novo) ao dar a vida para que outros possam viver. Uma pesquisa do American Film Institute apontou a interpretação de Peter O’Toole em Lawrence da Arábia como a melhor de todos os tempos, mas eu o prefiro em Lord Jim. O filme tem Daliah Lavi, uma ex-Miss Israel que fez alguns filmes e era uma mulher de beleza assombrosa. O final, o enterro de Jim, no barco com o corpo que se afasta no rio, é uma das grandes emoções que carrego comigo. E o Brooks ainda fez Happy Ending, que se chamou no Brasil Tempo para Amar, Tempo para Esquecer, com Jean Simmons. O filme tem este título opriginal porque, ao contrário da ficção hollywoodiana, na qual predomina o happy end, na vida nem sempre existem finais felizes. E o filme tem a cena em que Lloyd Bridges, o pai de Jeff e Beau, explica à amante, Shirley Jones – que havia ganhado o Oscar de coadjuvante por Entre Deus e o Pecado –, a importância do casamento. Ele fala na importância econômica. O casamento movimenta a economia. Quem casa quer casa e isso significa consumo. É um diálogo maravilhoso e, há 37 anos – o filme é de 1970 –, uma coisa profética, de um artista que estava se antecipando ao seu tempo. Consegui comprar vários filmes do Brooks em DVD, incluindo Os Profissionais, um raro western revolucionário, que se antecipou de dois anos ao célebre Maio de 68. Só nunca consegui encontrar Lord Jim. O filme também não passa há anos. Nunca o vi na TV paga, por exemplo. Lorde Jim é um daqueles filmes que me faltam.