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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2006 | 12h18

Entusiasmado como fiquei com os dois Hustons do pacote da Warner, esqueci-me do Minnelli que a distribuidora também está colocando à venda, no mesmo e miraculoso pacote. Sede de Viver chama-se Lust for Life, no original. É de 1956 e deu a Anthony Quinn seu segundo Oscar de coadjuvante – ele já havia recebido outro por Viva Zapata!, do Kazan, acho que quatro anos antes. Quinn representa Gauguin e a sede de viver é de Van Gogh, interpretado por Kirk Douglas. De todos os diretores do cinema, nenhum, como o pai de Liza Minnelli, talvez tenha encarnado tanto, ou tão bem, o mistério da cor. Tivemos Visconti, Cukor, Zurlini, mas Minnelli… Seuas filmes em preto-e-branco (Assim Estava Escrito/The Bad and the Beautiful) são magníficos, mas a cor é extraordinária em Sinfonia de Paris, especialmente na suíte An American in Paris, cujo balé recria a capital francesa segundo diferentes pintores, e em Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, onde a oposição entre o verde o vermelho constrói a crítica do diretor ao nazismo. Em vários de seus filmes, musicais ou não, Minnelli tratou o problema do artista num mundo em que ele, invariavelmente, não se encaixa por seu temperamento libertário. Para quem havia filmado, em Hollywood, a loucura de artistas comerciais, a loucura de um gênio como Van Gogh era um prato cheio. Um crítico francês, não me lembro quem (Domarchi? Douchet?) disse que o cinema do Minnelli leva a estilização ao extremo, revela uma vontade estética que é, ao mesmo tempo, recriação do mundo. Tudo isso o aproximava de seu pintor preferido, Van Gogh. A fase em Arles, a loucura, a orelha decepada, a morte, o amarelo dos campos de milho e trigo e o verde escuro, sombrio, dos ciprestes, tudo vira uma encenação grandiosa na qual, no centro de tudo, está a interpretação de Kirk Douglas. O pai de Michael fez grandes filmes, com grandes diretores, mas os três ou quatro que eu prefiro são Glória Feita de Sangue, Sede de Viver e Sem Lei sem Alma, o western de John Sturges no qual ele faz Doc Holiday. O mais impressionante é que Kirk se parece muito com Vincent Van Gogh. O outro Vincente, o Minnelli, deve tê-lo escolhido pelo físico, porque com o talento ele já sabia que poderia contar.