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Luiz Carlos Merten

19 Abril 2008 | 10h54

Perdi o bonde da história. Somente hoje, ao checar sala e exibição de um filme que quero ver no Guia do Estado, encontrei, lá na rubrica Especiais, a notícia do ciclo ‘Vida Louca, Vida Intensa, Uma Viagem pela Contracultura’, no Sesc Pompéia. Antônio Gonçalves Filho me falou que ia rolar, mas na minha cabeça seria em maio e eu fui atropelado pela descoberta de que ontem, na aberttura, passou o ‘If…’, de Lindsay Anderson. O filme terá nova exibição na terça, 20h30. Amanhã, acho que às 14 horas – é bom checar -, passa ‘Sem Destino’, de Dennis Hopper. Não tenho muito interesse por ‘The Trip’, do Roger Corman, que tinha um horroroso título nacional, algo como ‘Viagem ao Mundo Alucinado dos Sonhos’ – se não era isso, era parecido. A cena do baseado, no cemitério, em ‘Easy Rider’ dá de 10 nas firulas visuais do velho Corman para celebrar o LSD. Adoraria ver, e vou fazer força para isso, ‘Scenes from the Life of Andy Warhol’, de Jonas Mekas, primeiro documentarista que me impressionou e a quem tive acesso assistindo a ‘Guns in the Trees’, que ele fez com o irmão, Adolph, na Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre, nos anos 60. Foi uma noite memorável, para mim,, porque foi projetado – em 16 mm – um duplo que me marcou, o filme dos Mekas e ‘Rabindranath Tagore’, de Satyajit Ray, sobre o grande porta. Só depois vi os filmes de Robert Flaherty e o ciclo documentário do inglês Grierson. Vocês entendem portanto, como Mekas foi importante para mim. Mas volto a ‘Se…’ e ‘Sem Destino’. Em 1969, o Brasil vivia sob uma ditadura brutal e a gente curtia a ressaca de Maio de 68 quando Lindsay Anderson fez seu filme que ganhou a Palma de Ouro. No Brasil, ele foi lançado em 1970. Assisti a ‘Se…’ num cinema que se chamava Moinhos de Vento e, depois, virou Coral, lá em Porto. Não me lembro mais qual era o nome, na época. ‘A guerra é o último ato de criação possível’, pensam os garotos de ‘Se…’, que se rebelam contra o ‘sistema’,. representado pela arcaica estrutura daquele colégio tradicional, e terminam o filme de armas na mão, disparando contra tudo e todos. Se… Lembro-me que havia uma romaria de jovens para ver o filme, e que ele era aplaudido. Isso faz parte da minha vida. Malcolm McDowall! Que coisa. Não me esqueço também de uma frase de Jack Nicholson para Wyatt e Billy, os personagens de Dennis Hopper e Peter Fonda em ‘Sem Destino’, obviamente inspirados em Wyatt Earp e Billy the Kid. Ele diz – ‘Você sabe, esta é geralmente uma boa terra. Não sei o que anda acontecedndo com ela.’ Não é preciso mudar um tempo de verbo, uma vírgula – a frase continua valendo hoje, ou vale hoje mais do que nunca para definir os EUA, a ‘Amédrica’ de George W. Bush (há 40 anos era a de Lyndon B. Johnson). Pode ser atrasado, me desculpem, mas o ciclo vai até dia 30 e merece toda atenção. O Sesc Pompéia construiu um cineminha de 80 lugares, que chamou de Cine Beatnik, para abrigar o evento. Só para lembrar – ‘Sem Destino’, que ganhou o prêmio para diretor estreante no mesmo ano da Palma de Ouro para ‘Se…’ e do prêmio de direção para Glauber Rocha, por ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, tudo em Cannes, foi o 15º filme do ciclo motprcycle gang, que Roger Corman havia iniciado anos antes, refletindo sobre um fenômeno tipicamente norte-americano. Desde 1947 – Jack Kerouac, ‘On the Road’, Pé na Estrada -, bandos de beatniks e hippies percorriam os EUA montados em motocicletas. Espero que o ciclo do Sesc Pompéia apresente um filme que para mim foi fundamental – como só a primeira semana está no Guia do Estado, não sei o que vem depois, mas fiquem atentos. Se (If…) passar ‘Vanishing Point’ (Corrida contra o Destino), de Richard C. Sarafian, não percam porque é uma obra-prima. Vocês sabem que sou passional e, às vezes, exagero, mas Sarafian fez simplesmente os dois maiores filmes norte-americanos por volta de 1970, o citado ‘Corrida contra o Destino’ e, na seqüência, ‘Man in the Wilderness’ (Fúria Selvagem), com Richard Harris e John Huston. Melhor que Altman, que Arthur Penn, que Schlesinger (que estava fazendo ‘Perdidos na Noite’). Melhor que tudo, ou todos. Grande Sarafian. Depois, foi a queda vertiginosa. Um dia ainda vou tentar decifrar este enigma.