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Se gosto de Wyler?

Luiz Carlos Merten

03 Junho 2009 | 12h16

Mauro Brider me pergunta sobre Wyler, se também sou um carrasco do diretor? E ele assinala que há um movimento da crítica para desacreditar o classicismo do ‘mestre’. Wyler teria envelhecido… O curioso é que ele já era ‘velho’ no auge. O próprio Wyler, como uma reação à nouvelle vague, incluiu em seu cartão, nos anos 60, as iniciais A.V., de ‘ancienne vague’. Embora norte-americano, o diretor nasceu na França, não sei se vocês sabem, e permaneceu ligado ao país que lhe forneceu o berço. Só o fato de ele ser adorado – e defendido – por ninguém menos do que André Bazin já deixa claro que não é muito fácil se desembaraçar de Wyler. Pelo contrário, acho até que há um revival de Wyler. Os ingressos de ‘Ben-Hur’ foram os primeiros a se esgotar na grande retrospectiva dos 70 mm – ‘Bigger than life’ – realizada no Festival de Berlim, em fevereiro. Havia dois filmes que queria muito ver, e curiosamente ambos são interpretados por Charlton Heston. Um, ‘Ben-Hur’; o outro, ‘Kartum’, de Basil Dearden. Perdi ambos, o que foi motivo de grande desapontamento para mim, mas amigos que assistiram ao épico dos tempos de Cristo, adaptado do romance do general Lewis Wallace, ficaram de quatro com o esplendor audiovisual de ‘Ben-Hur’. Tinha um amigo, comunista de carteirinha, em Porto, que adorava o cristianismo solidário do filme. E ele chorava com o milagre, quando o sangue de Cristo, na cruz, purifica a doença (a lepra) da mãe e da irmã de Judá, após a morte de Messala. Logo em seguida, em março – ou abril – a carranca da fonte de Roma em que o jornalista Gregory Perck põe a mão para impressionar Audrey Hepburn em ‘A Princesa e o Plebeu’ forneceu o pôster para o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. E ‘O Colecionador’ foi restaurado. Wyler foi criticado numa certa época por seu perfeccionismo, que o levava a filmar em estúdio, para controlar a imagem de seus filmes. Não me lembro mais em qual melodrama com Bette Davis – acho que ‘The Letter’ (A Carta), adaptado de W. Somerset Maugham – , ele fez pintar a sombra de uma árvore para obter exatamente o efeito que desejava numa parede. Wyler era um realista social que privilegiava os roteiros sólidos, carregados de psicologismo. E ele colocou sua arte de grande diretor de elenco a serviço de ‘astros’ e ‘estrelas’. Por tudo isso, era o alvo perfeito quando a nouvelle vague colocou seu bloco na rua e desdramatizou o roteiro, pegando carona em Rossellini (‘Viagem na Itália’) para celebrar a improvisação como ‘método’. mas Bazin já defendia o uso da profundidade de campo, por Wyler. Seus detratores diziam que ele era um estilista sem estilo, Bazin dizia que a assinatura estava na forma como Wyler dava ao espectador a oportunidade de ele próprio fazer seu corte, estudando cada personagem, dentro da mise-en-scène do autor, de acordo com sua vontade. Fiz este post anterior dizendo que adoraria estar hoje em Paris para (re)ver ‘Doce Pássaro da Juventude’. Espero que Neusa Barboza, que lá está, não tenha se esquecido do seu compromisso comigo e veja o filme por mim, como combinamos, em Cannes. Mas eu gostaria também de estar em Paris em julho, ou agosto, quando também vai sair, em cópia nova, ‘Infâmia’ (The Children’s Hour), com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, que Wyler fez em 1972, retomando outro filme seu dos anos 30 – outro ‘Infâmia’ (These Three) –, para tratar do homossexualismo feminino. Confesso que nunca me impressionei muito com ‘Os Melhores Anos de Nossas Vidas’, mas ‘Jezebel’ é um clássico, o universo concentracionário de ‘Chaga de Fogo’ (Detective Story) me apaixona – Wyler lixa-se para a origem teatral do seu filme e mantém o foco na profundidade de campo – e o meu Wyler favorito, como o do Mauro, é ‘Da Terra Nascem os Homens’, western que não me canso de (re)ver – e que, além de tudo, ainda tem aquela partitura de Jerome Moross. A cena de luta entre Gregory Peck e Charlton Heston é um momento antológico do cinema. Wyler está tão entranhado em mim que gostar ou não gostar fica irrelevante. Posso gostar mais, ou menos, desse filme ou daquele. Mas eu o carrego comigo, e isso é mais importante.

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