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Cultura » Se gostei de ‘A Partida’?

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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2009 | 15h36

Márcio Tiago me pergunta o que achei de ‘A Partida’? Gostei do filme de Yojiro Takita e ainda ontem, ao (re)ver o trailer, indo assistir a ‘De Repente, Califórnia’, lembrei-me de que nada havia escrito sobre ele. Primeiro, foi a surpresa. Como todo mundo, achava que Ari Folman, com ‘Valsa para Bashir’, seria o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Agora, retrospectivamente, pode-se dizer que os ‘velhinhos’ da academia talvez não tenham querido se comprometer com o filme tão explosivo, ainda mais num momento – fevereiro – em que ainda era recente o impacto de outra violenta repressão do exército de Israel (em Gaza). Mas eu acho que esse tipo de explicação tenderia a diminuir o filme de Takita e eu o achei muito sensível e bonito. A morte é um tabu que o cinema raras vezes ousa abordar. Esse filme consegue tratar do assunto com leveza e até humor. Lembrei-me de ‘As Centenárias’, embora o espetáculo de Aderbal Freire Filho, a partir da peça – premiada com o Shell – de Newton Moreno, não tenha nada a ver (aparentemente). Mas me parece interessante cotejar essas maneiras de encarar o assunto. Na peça brasileira, trata-se de enganar a Morte, como fazia o cavaleiro de Bergman em ‘O Sétimo Selo’, jogando xadrez com ela para atirar para a frente o inevitável. O japonês conta a história desse músico que perde o emprego e precisa complementar a renda, numa cidade do interior, dedicando-se a oficiar o culto dos mortos. É curioso como Yojiro Takita mistura as duas coisas, a música e o cuidado com os cadáveres no mesmo movimento. Percy adlom já contara uma história parecida em ‘Estaç~qao Doçura’, a da maquiadora de cadáveres, mas nunca fui muito fã dele. Já que tratei do assunto, estou me lembrando que o culto aos mortos é particularmente forte no México, tendo influenciado o próprio Eisenstein – em ‘Que Viva Méjico!’ -, e também inspirando um dos episódios de ‘Raices’, o clássico de Benito Alazraki, por volta de 1960, que me pareceu impactante na época, mas nunca mais revi o filme para saber se é bom de fato. O culto mexicano aos mortos está no centro de ‘A Sombra do Vulcão’, que John Huston adaptou do romance de Malcolm Lowry, com um Albert Finney em estado de graça, e não deixa de estar presente em ‘Macário’, de Roberto Gavaldón, com Ignazio Lopes Tarzo, mais próximo de ‘Raíces’, lá nos 60. O filme conta a história do camponês que consegue ver a morte junto ao leito dos moribundos. Ela lhe sinaliza se as pessoas vão viver ou morrer e Macário ganha fama de vidente, milagreiro e tudo o mais, mas não consegue salvar justamente a vida que vai fazer a diferença para ele. ‘Macário’ era muito bem fotografado, não me lembro se por Gabriel Figueroa. Havia uma profusão de velas no filme e o preto e branco era rigoroso. Será que era bom? São tantos filmes que, de alguma forma, um dia nos marcaram – me marcaram – e depois desapareceram…