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Luiz Carlos Merten

05 Outubro 2006 | 12h42

Confesso que não tenho mais muita paciência com os filmes do Scorsese. Acho que, se é verdade que, por trás de todo grande homem existe uma grande mulher, a mulher por trás de Svcorsese era a produtora Barbara De Fina, com quem ele fez seus melhores filmes. Depois que trocou de mulher (e produtora), Scorsese iniciou uma viagem megalomaníaca, com Gangues de Nova York e O Aviador, que eu, sinceramente, não suporto e até fico me perguntando – mas como as pessoas podem gostar dessas ‘pieces of shit’? Tinha a maior expectativa por Os Infiltrados, que vi ontem à noite. Achava que poderia ser a redenção do Scorsese. É meia boca. Como cinema, é suntuoso, apesar do ridículo da metáfora do ratinho, na última cena, uma coisa muito cafona, para dizer a verdade. Mas a exuberância da mise-en-scène impressiona. Scorsese fez a primeira parte da trilogia que iniciou com Os Bons Companheiros. Foi o Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) dele. Como Howard Hawks, que construiu variações do mesmo filme com John Wayne (Eldorado e Rio Lobo), Scorsese também fez suas variações de Os Bons Companheiros – Cassino e, agora, Os Infiltrados. O filme conta a história de um criminoso infiltrado na polícia e de um policial infiltrado no mundo do crime. Ambos se caçam, porque sabem que estão com a vida em perigo. Não tive empatia vendo o Leonardo DiCaprio interpretar Robert De Niro na primeira parte do filme, repetindo o muxoxo característico do outro. Na segunda, o personagem fica mais interessante, ganha identidade própria. também não me envolvi muito com as maquinações do Matt Damon, mas cansei mesmo foi do Jack Nicholson, aplaudido em cena aberta pelo público do Festival do Rio, ao criar, com todo o exagero a que tem direito, como superastro, o personagem em torno do qual tudo gira – o criminoso que tem linha direta com o FBI. O mundo não tem mais ética, está podre, é tudo uma m…, como diz o Oscar Niemeyer no documentário A Vida É Sopro, exibido na Première Brasil. Não. Peraí. Ainda existe um último resquício de ética, representado pelo personagem do Mark Wahlberg, mas os ratos estão no poder. Me deu um vazio tão grande – então é isso? Esse brilho formal e só? Essa ausência de humanidade? Pode ser que o filme cresça na revisão, embora eu duvide. Fiquei com aquela sensação de glamourização da violência que os outros tiveram diante de Cidade de Deus, do Meirelles. E fiquei pensando – será que Os Bons Companheiros era tão bom quanto me pareceu, na época? Gente que admiro, gente que até já morreu, me dizia que Os Bons Companheiros, como Pulp Fiction, do Tarantino, era ‘shit’, que eu ia me arrepender. Briguei muito, achando que não, mas agora ando em dúvida. Os Infiltrados não é aquela falsificação nojenta de O Aviador, mas Scorsese, que antes me estimulava, agora me desconcerta no mau sentido.