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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2006 | 09h14

Já gostei muito de Scorsese, embora no exato momento em que comecei a escrever a frase pensei também – mas de qual Scorsese gostei tanto assim? De Motorista de Táxi não foi, de New York, New York também não. Pode ter sido de Touro Indomável e, mais ainda, de Depois de Horas, quando me parece que tudo chegou a um ponto ideal – o gosto do Scorsese pela mise-en-scène exuberante, suas obsessões mais íntimas, o pesadelo em que ingressa o personagem e que ele transforma em vertigem para o espectador. Comecei a duvidar do Scorsese, ou da minha paixão por ele, quando vi Gangues de Nova York. Achei O Aviador pior, na verdade, muito ruim, por mais que algumas cenas sejam maravilhosas. Mas O Aviador me fez repensar o velho Os Insaciáveis, também inspirado em Howard Hughes, e eu terminei chegando à conclusão que o pobre do Dmytryk, um diretor espezinhado pela minha geração por seu desempenho durante o macarthismo, talvez tenha sido bem melhor que a gente pensava. Quando vi que Scorsese, em seu terceiro filme com DiCaprio, ia fazer um ‘pequeno’ policial, pensei – é agora que ele se encontra, ou reencontra. Ainda não foi desta vez. Compreendo que Os Infiltrados tenha atrativos para muita gente. O problema é só que eu não tenho mais muita paciência para aquilo. DiCaprio supostamente interpreta um policial de Boston que tem problemas com seu passado, com a imagem do pai. Ele aceita se infiltrar no mundo do crime, enquanto Matt Damon é o apadrinhado do chefão Jack Nicholson que se infiltra na polícia. Nada disso é encarado como ‘real’ pelo diretor. O mundo que ele mostrra já é midiatizado pelo cinema. DiCaprio interpreta Robert De Niro num filme do Scorsese (confiram os trejeitos) e Jack Nicholson é ele mesmo, em tempo integral. Tudo isso é genial ou abominável e eu confesso que estou mais para a segunda opção. É um cansaço meu em relação a um cinema que não me diz mais nada. Confesso que talvez esteja sendo injusto, porque o Scorsese tem noção disso e ele cria um personagem, o quarto em cena, que é o único com integridade para manter o público vinculado ao mundo fora da sala de cinema. O mínimo de interesse que achei em Os Infiltrados, devo ao Mark Wahlberg. Sem ele, e sua ação final, o filme seria (será que a palavra é muito forte?) insuportável.