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Scoop – O Grande Furo

Luiz Carlos Merten

05 Março 2007 | 16h48

Fui ver hoje de manhã Scoop – O Grande Furo, do Woody Allen. Ando com um sentimento ambivalente em relação a ele, nos últimos tempos. Não tenho nada de me meter com a vida dos outros, mas, enfim, acho que, pelo menos do ponto de vista da cinefilia, Allen era melhor no tempo em que era casado com Mia Farrow. Nada como um filme depois do outro. Quando se divorciaram, com toda aquela baixaria, Allen fez Maridos e Esposas, que já antecipava o que ia ocorrer. Há pouco revi na TV paga Hannah e suas Irmãs. É um filme do tempo em que Allen estava apaixonado por Mia. Sua personagem não existe – é uma idealização. Ninguém pode ser tão humano, gentil, compassivo, sincero nem apaixonado como a Hannah de Mia Farrow. E o filme é maravilhoso. Forma a trinca dos meus Woody Allens favoritos, com Zelig e A Rosa Púrpura do Cairo. Tenho em relação a Woody Allen um pouco do sentimento que Paulo Francis tinha em relação a Truffaut. Me lembro que certa vez ele escreveu uma coisa que me pareceu absurda, mas que agora compreendo. Ele dizia que o casamento de Truffaut com Fanny Ardant havia sido ótimo para o homem, mas péssimo para o artista. não chego a tanto em relação a Woody Allen, mas o cinema dele não tem mais aqueles píncaros. De volta a Scoop, que estréia dia 23. O filme é conseqüência de Match Point. Depois do Crime sem Castigo, Allen fez mais um de seus Crimes e Castigos. É curioso como a Inglaterra entra no seu cinema. Há um sistema de classes que os personagens tentam manter, ou ao qual tentam ter acesso, pelo crime. E o curioso é que as vítimas potenciais, ou reais, são sempre belas americanas – tão belas que são interpretadas por Scarlet Diva, isto é, a Johansson. Scarlet, aqui, é a anti-jonathan Rhys-Meyers. Uma arrivista do bem. Não me lembro de filme recente do Woody Allen que seja tão auto-referencial. Scoop é Match Point filtrado por Broadway Danny Rose, com o show de mágica do episódio Édipo Arrasado, de Contos de Nova York. E, se Allen fingiu surpresa em Cannes, há dois anos, quando fizemos, jornalistas de todo o mundo, a ponte entre Match Point e o clássico Um Lugar ao Sol, de George Stevens, desta vez ele agiu muito conscientemente. Não quero revelar detalhes para não tirar a graça, mas há um crime, ou uma tentativa de crime, no desfecho. Envolve um passeio de barco, como aquele em que Montgomery Clift tenta matar Shelley Winters no filme de Stevens. Este retorno não é acidental. Faz parte do sistema de piscadelas que Allen cria em Scoop. Quero rever o filme antes de voltar a falar nele. Juro que não sabia nada, não havia lido nada, nem visto o trailer. Só o cartaz. Como conseqüência, entrei virgenzinho de mente no cinema, sem saber o que esperar – sem saber sequer o que ia ver. Não me encantei, se vocês entendem, mas o que mais me impressionou foi a forma. Woody Allen fez um filme que tem a cara de antigo. Suas opções de corte, montagem e passagem de tempo remetem a um cinema do passado. Achei muito estranho. E a barca dos mortos, no começo e no fim, eu ficava me dizendo – é para rir, é para rir –, mas o riso não vinha. Para estimular a interatividade, já que a maioria ainda não deve ter visto Scoop, por que vocês não fazem sua lista de preferidos, entre os filmes do Woody Allen?