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Cultura » Scola, o cinema do testemunho

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Luiz Carlos Merten

18 Julho 2007 | 17h54

Régis me cobra a avaliação do Ettore Scola, que ainda não foi feita. Sei lá, até acho prematura, porque de alguma forma ia terminar diminuindo o Ettore, já que não gosto tanto dos últimos filmes dele. Após aquele apogeu que foi A Viagem do Capitão Tornado, não gostei muito de Mário, Maria e Mário nem de A História de Um Jovem Homem Pobre ou de Concorrência Desleal. Em compensação, ontem mesmo estava falando aqui no jornal com Lauro Lisboa Garcia. Estréia na sexta o filme Baila Comigo, ele se lembrou de O Baile e ficamos conversando sobre o filme que forma, com Capitão Tornado, a dupla de meus Scolas favoritos. Acho O Baile genial pela forma como Scola condensa, num salão de baile, sem diálogos, só por meio de gestos e músicas, décadas de história da França (e da Europa) no século 20. Como Saura, com seus filmes dançados, ele descobriu aí uma fórmula que teve desdobramentos (A Família, que não é tão bom). Mas Scola foi, ou é, fundamental na (r)evolução da comédia italiana. Não é segredo para ninguém que eu acho Dino Risi um gênio, pelo menos em filmes como Aquele Que Sabe Viver, Os Monstros e Férias à Italiana. Scola foi roteirista de Risi antes de se tornar, ele próprio, jornalista, roteirista e diretor. É curioso que tenha feito estudos jurídicos antes de virar cineasta, o que lhe deu uma base legal (em duplo sentido) para entender as relações sociais e a opressão dos indivíduos. Perguntaram certa vez a Scola se o cinema dele era engajado e ele respondeu que só faz aquilo em que acredita, acreditando no que faz. Como o engajamento faz parte da honestidade, sim, ele é engajado, mas não gosta do termo. Acho que a obra dele dá um testemunho extraordinário sobre a sociedade sociedade contemporânea, a italiana com certeza, mas não apenas ela. Seus melhores filmes, a que já me referi, têm ligação com a França – Tornado é uma adaptação de Capitain Fracasse, de Théophile Gautier. Há filmes dele de que que gosto muito (Feios, Sujos e Malvados, Nós Que Nos Amávamos Tanto, Paixão de Amor, Casanova e a Revolução – de novo a França –, O Baile e Capitão Tornado). Outros de que gosto menos (Um Dia Muito Particular, O Terraço, Splendor) e até os que já citei no começo como não gostando tanto e de Mário, Maria e Mário não gosto mesmo. Tanto faz a discrepância em relação a um ou outro filme. A obra de Scola é extraordinária como um todo, e muito rica. Sua preferência pelos excluídos não tem nenhum pé na demagogia. Ele é afetivo mas crítico com seus sujos e malvados, com seus gays, com seus intelectuais em crise de identidade. Citei dois filmes como favoritos, mas se tivesse que citar só um seria Capitão Fracasso, em que Massimo Troisi, Vincent Perez e Ornella Muti são tão mavilhosos que os carrego comigo, mesmo.

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