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Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2011 | 12h11

Estou aqui na redação do ‘Estado’. Vim fazer os filmes na TV e volto à noite para acompanhar o Oscar. Vai ser a primeira vez, em mais de dez anos, em que não estarei acompanhado de Dib Carneiro, que não é mais editor do ‘Caderno 2’. Pretendo postar alguma coisa à tarde sobre prognósticos, embora, em princípio, este pareça um Oscar de cartas marcadas – ‘O Discurso do Rei’, Tom Hooper, Colin Firth, Natalie Portman, Christian Bale etc. Confesso que, depois de um dia sabático – ontem -, estava reabrindo o blog para postar alguma coisa sobre ‘Bruna Surfistinha’, que me surpreendeu, e depois eu conto por que. Agora, confesso que estou em choque. Quando abro a internet no computador do jornal automaticamente me vem a página do site do Estadão e assim fiquei sabendo da morte de Moacyr Scliar, de falência múltipla de órgãos, aos 73 anos. Nunca fui ‘amigo’ dele. Conhecia-o, claro, da Caldas Jr, da redação da ‘Zero Hora’, mas, para falar a verdade, conhecia mais Judith Vivien Oliver, mulher dele, desde os tempos em que trabalhei no Colégio Israelita Brasileiro, em Porto. Eu tinha uma bela letra e a Judith, que depois criou a escola Lollypop, durante uma fase sempre me pedia para produzir cartazes para ela (e seus aluninhos). Quando os encontrava, e era raro, era a ela que me dirigia, em primeiro lugar. Cumprimentos, meias conversas. Com o Scliar, eu conversava mesmo através dos livros. Admirava-o, até por ser tão prolífico, como escritor. A gente nunca sabia direito aonde o Scliar ia nos conduzir, mas seu humor (judaico) sempre se fazia presente por meio de uma escrita impecável. ‘A Guerra no Bom Fim’, ‘O Exército de Um Homem Só’, ‘Os Deuses de Raquel’, ‘Mês de Cães Danados’, ‘Max e os Felinos’, ‘Cenas da Vida Minúscula’, tantos romances. E os contos. ‘O Carnaval dos Animais’, ‘A Balada do Falso Messias’, ‘O Amante da Madonna’. E a produção juvenil. ‘O Rio Grande Farroupilha’, ‘O Mistério da Casa Verde’. Minha ex sogra, a Alair, mãe de Doris, adorava os livros do Scliar. Estou aqui travado. Ainda preciso reprocessar a informação. Está vindo muita coisa na minha lembrança, muito mais que os livros. Nem falei dos filmes. ‘Um Sonho no Caroço do Abacate’, ‘Sonhos Tropicais’. Nenhum é bom de verdade, mas possuem algumas qualidades e ‘Um Sonho’ me permitiu conhecer Elliott Gould e Talia Shire e, se com ela, conversei muitro sobre seu irmão, Francis Ford Coppola, com ele meu assunto foi Robert Altman. De repente, me baixou uma tristeza. O Oscar e a Bruna (Surfistinha) ficam para depois.