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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2009 | 11h08

Marcos Sampaio me pergunta como li o livro de Paul Schrader sobre Yasujiro Ozu – se foi em inglês? É curioso, mas nunca encontrei o livro do Schrader em livrarias norte-americanas. Deve haver, não sei se está esgotado, mas nunca achei (e olhem que não foi por falta de procurar naquelas livrarias enormes, cujas seções de cinema deixam qualquer cinéfilo louco). Comprei o livro no começo do ano passado na Espanha, lançado pela Ediciones JC CLementine, de Madri, com o título de ‘Ozu Bresson Dreyer, El Estilo Trascendental en el Cine’. O tradutor é Breixo Viejo Viñas, que também assina o prólogo e comentários. Acho linda – além de intrigante – a citação de abertura. ‘A religião e a arte são linhas paralelas que se cruzam somente no infinito, ali onde se encontram com Deus’. Não é? O autor da reflexão é Gerardus Van Der Leeuw, historiador e filósofo de religião holandês que morreu em 1950. Na sua apresentaçãO, Breixo Viejo lembra que Schrader, submetido à dura discplina calvinista de sua família, passou os primeiros 17 anos de sua vida sem assistir a filmes. Vieram depois a paixão pelo cinema, os estudos na UCLA e a parceria, como roteirista, com Martin Scorsese, antes que ele próprio virasse diretor. Sem modéstia, o próprio Schrader faz uma autodefinição muito apropriada – ‘Meu cinema parece comercial e comum, mas na verdade é espiritual e fora do comum. Creio que esse contraste é que torna meus filmes interessantes.’ Acrescento eu – e como são interessantes! ‘Gigolô Americano’, ‘O Seqüestro de Patty Hearst’ e ‘The Confort of Strangers’, que assisti em Veneza e depois fui passear naquelas vielas que Schrader mostra opressivas e sombrias. Até hoje não sei se o filme é perturbador de fato, ou assim me parece pelas crcunstâncias em que o vi. Quanto a ‘Gigolô Americano’, Richard Gere (vestido por Armani), a música de Giorgio Moroder, a estilização visual e o desgecho que reproduz Bresson (‘Pickpocket’) – Deus, como eu gosto daquele filme!