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Cultura » Schaffner, que um dia foi grande

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Luiz Carlos Merten

06 Setembro 2007 | 13h08

Falei outro dia naquela geração que a TV cedeu a Hollywood no final dos anos 50 (Lumet, Frankenheimer). Estendendo mais um pouco a data, para o início dos 60, pode-se incluir nela Franklin Schaffner. Não sei por que, mas nunca esqueci o longa de estréia dele, Vênus à Venda, The Stripper, de 1962, que começa com um tour de ônibus por Hollywood – esta é casa de fulano, aquela do sicrano. Aparece uma loira de óculos escuros. Os matutos no interior do ônibus perguntam – E aquela, quem é? O guia é duro – Ninguém! Está apresentada a personagem de Joanne Woodward, a stripper que vai se apaixonar por um garoto de boa família. Schaffner começou a mostrar que tinha futuro dois anos mais tarde, quando se baseou na peça de Gore Vidal para fazer Vassalos da Ambição (The Best Man), sobre uma disputa presidencial, tornando mais explícito o tema do homossexualismo na política, que Otto Preminger já tratara em Tempestade sobre Washington – que é melhor. Dois candidatos disputam a indicação do partido, Henry Fonda pode ser o escolhido, se revelar o passado homossexual de seu principal oponente, mas o pai de Jane era aquele monumnento de integridade (salvo em Era Uma Vez no Oeste) e preferia perder, abrindo espaço para que um tertius (o melhor homem, do título original) fosse o escolhido. Seguiram-se O Senhor da Guerra, com Charlton Heston como senhor medieval que requisita o direito à primeira noite da virgem Rosemary Forsyth – e o filme, antes de ser ‘americanizado’ pela empresa Universal, tinha cenas de ritos da Idade Média que pareciam complementar o Bergman de O Sétimo Selo – e O Planeta dos Macacos, de novo com Charlton Heston, que virou o cult que todo mundo sabe. A trajetória ficou depois errática – Patton, Nicolas e Alexandra, Papillon, Os Meninos do Brasil –, mas Schaffner nunca fez nada pior do que Uma Voz para Milhões, seu horroroso veículo para Luciano Pavarotti. Nunca vi o último filme dele, Lionheart, A ÚItima Cruzada, mas de tudo o que Schaffner fez nada me toca tanto quanto As Ilhas do Adeus, adaptado do romance de Ernest Hemingway. Não me impressiona a trama sobre George C. Scott como pai que quer afundar submarino alemão para vingar a morte do filho. O que amo é a cena em que Claire Bloom, como a mulher de quem Scott vive separado, vem dizer ao ex-marido, naquela praia, que o filho deles foi morto. A morte de um filho é o pior de todos os pesadelos para um pai, e uma mãe, mas eu nunca vi ninguém filmar uma cena assim, daquele jeito, à distância, com tanto pudor (e com dois atores tão maravilhosos). Sempre tive a impressão que Schaffner, incensado, oscarizado, poderia escolher, mas ele aceitou ser escolhido para coisas certamente inferiores ao talento, e profissionalismo, que possuía. Schaffner morreu em 1989. É sempre lembrado pela cena de Charlton Heston, ajoelhado na praia, descobrindo a verdade sobre o planeta dos macacos, na derradeira cena da ficção científica adaptada do livro de Pierre Boulle, em 1968. Eu prefiro a outra praia, aquela em que George C. Scott e Claire Bloom vencem o ressentimento e se abraçam, para tentar suportar, unidos, a dor pela perda do filho.

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