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Cultura » Saudades do ‘meu’ Altman

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Luiz Carlos Merten

16 Novembro 2006 | 19h49

Esqueci de comentar. A Regra do Jogo teve uma exibição especial em Nova York e o The New York Times deu uma nota razoável destacando a importância do filme do Renoir. O melhor de tudo é que o Altman foi entrevistado e disse que deve tudo a Renoir. “Foi A Regra do Jogo que me ensinou as regras do cinema”, ele resumiu. Fiquei feliz da vida, ao mesmo tempo que senti certa tristeza. Sempre achei que o método do Altman de soltar a câmera entre diversos personagens era uma herança de Buñuel (O Discreto Charme da Burguesia), mas também escrevi que Assassinato em Gosford Park era A Regra do jogo dele. Já gostei muito do Altman. Revi outro dia na TV paga o MASH e o filme é maravilhoso. Amo Quando os Homens São Homens, Um Perigoso Adeus, Nashville e Cerimônia de Casamento. São filmes antigos de Altman. Tenho minhas dúvidas se ele depurou seu estilo ou se se acomodou nele. Outro dia, alguém me disse que A Última Noite era colírio para os olhos. Colírio? Com a pobre da Virginia Madsen fazendo aquele anjo disparatado que circula de gabardine branca pelo filme? Humm… Acho que Altman há tempos deitou na fama. O próprio Gosford Park é uma diluição de A Regra do Jogo, filtrada por um mistério à Agatha Christie. Não é desagradável, reconheço, mas me aborrece quando um grande como Altman se acomoda e tanta gente querendo dizer alguma coisa não é reconhecida por, sei lá, preconceito da crítica. Não sou louco de dizer que um filme como Amigas com Dinheiro é uma maravilha, mas duvido que o Altman atual, tão nostálgico de si mesmo, tivesse coragem de filmar uma cena como a da Frances McDormand no mercado, reagindo àquele casal de negros que passa na frente dela. Mas é verdade – este cara já foi grande. Nashville é tão forte no meu imaginário que eu sou capaz de rever de memória a decupagem da cena em que Keith Carradine canta I’m Easy (que ele compôs e ganhou o Oscar de canção). E, como esta, muitas outras cenas do meu Altman favorito.

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