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Saudades do Brasil

Luiz Carlos Merten

09 Julho 2011 | 12h00

No hospital, durante uma semana, não me restava outra coisa a fazer senão assistir à TV. Acompanhei a série de câncer de mama do Jornal Nacional e as ‘investigações’ sobre o desaparecimento do pequeno Juan. Era evidente que ia dar no que deu e a polícia bem que poderia ter tomado um atalho, mas ainda surgiu aquela perita que trocou o sexo do garoto. Sinceramente, não sei como nós, a população brasileira, ainda resistimos. O refresco do JN é a corrupção do PR, as propinas no Ministério dos Transportes, e claro, o futebol, a Copa América. O resto, no qual estamos afundados, é o horror. Estou louco para retomar minha vida, voltar ao trabalho – e não ficar mandando matérias de casa; mas como pode ter gente que gosta disso? Quero fugir ao JN, às novelas, a tudo o que parece entorpecer este País. Os rapazes da seleção são ótimos, todo mundo adora Neymar, mas tomei um susto ontem quando o próprio declarou-se apaixonado pela novela do Gilberto Braga, ‘Insensato Coração’. Eu nunca havia assistido a um capítulo,  aleluia! Comecei a ver no hospital. Já parei. Devo estar na contramão de tudo, porque achei horrível. Há anos, décadas, que Gilberto bebe na fonte de Hollywood. Desta vez, ou me engano muito ou a ideia de prender o vilão em casa veio do filme argentino ‘O Segredo dos Seus Olhos’. Só que o que fazia a força do filme fica a cada dia mais diluído na relação entre a ‘patroa’ e o ’empregado’. Mas eu assumo que não sirvo exatamente como parâmetro. Perdi completamente minha paciência com o Canal Brasil, desde que deixou de ser o canal do cinema brasileiro para ser o do audiovisual. Ouço dizer que o canal vai muito bem, obrigado, ótimo para eles, mas eu fora. Não aguento a miscelânea de clipes, curtas, entrevistas. Socorro! Mas outro dia tive uma bela surpresa. Zapeava e entraram as imagens de ‘Os Cafajestes’. Como Ruy Guerra era bom! Como Norma Bengell era boa! Norma está atravessando uma má fase na vida e, até onde eu sei, meu amigo José Carlos Avellar, no Instituto Moreira Salles, no Rio, fez uma programação em sua homenagem, visando a angariar fundos. Desde Cannes eu conversava coim Avellar tentando conseguir que o IMS promovesse um encontro que, para mim, poderia ser da maior importância. Queria reunir Paulo César Saraceni e Gabriel Villela num debate sobre a obra de Lúcio Cardoso, em especial ‘A Crônica da Casa Assassinada’, que meu amigo Dib Carneiro adaptou e Gabriel transformou num espetáculo admirável (este é o penúltimo fim de semana em cartaz no Rio, no Teatro Maison de France). Saraceni foi homenageado no Festival de Tiradentes, em janeiro. Não estava muito bem de saúde, mas, cercado de amigos (Júlio Bressane), participou de uma mesa na qual relatou sua amizade com Lúcio Cardoso, dando um depoimento sobre o grande escritor como nunca vi. Apesar de Norma Bengell e Carlos Kroeber, não sou um grande admirador de ‘A Casa Assassinada’, o filme, mas gostaria muito de ter ajudado a viabilizar o encontro entre Saraceni e Gabriel Villela. Ocorre que há um mês, ou mais, ando doente, em recuperação, e isso não facilita minha liberdade de movimentação. Será que conseguiria fazer o debate em São Paulo, quando ‘A Crônica’ estiver no SESC, em setembro? Será possível trazer Saraceni? Volto a ‘Os Cafajestes’. O espectador que hoje revê o filme, como eu revi no Canal Brasil, fica chapado com a riqueza da mise-en-scène. Aquelas cenas de areia, na praia deserta, o preto e branco sublime da fotografia, tudo é impressionante. A espessura dos planos. A amargura de Norma, a cafajestice de Jece Valadão e Daniel Filho. Lembro-me de um artigo na antiga revista ‘Senhor’. Devia ser em 1962, não lembro quem era o autor. Mas era alguém que pegava os filmes que estavam dando nascimento ao Cinema Novo – ‘O Pagador de Promessas’, ‘Os Cafajestes’, ‘Assalto ao Trem Pagador’ etc – e concluía que eles estavam dando origem a uma nova linguagem. Não, não me interpretem mal, o que o autor do texto queria provar é que o português podia ser uma língua de cinema, porque não era considerado como tal. O diálogo desses filmes, a maneira como os atores os diziam. Talvez o que vá dizer agora desagrade a muita gente, inclusive a Ruy Guerra. Ele criou o que me parece uma cilada para si mesmo. De tanto criticar os roteiros made in HoIllywood, Guerra desenvolveu uma fantasia quântica que resulta em roteiros infilmáveis. ‘Veneno da Madrugada’ é horrível, apesar de cenas isoladas, magníficos fragmentos de mise-en-scène que mostram que Ruy não perdeu a mão.  Bom ele era na época de ‘Os Cafajestes’. Me deu uma tristeza. Durou um minuto. Foi substituída pela euforia. Puxa, como esses caras, esse cara, já foi bom.  E Norma… Era uma deusa. Também zapeando, parei outro dia na TV paga num filme italiano dos anos 1960. O sujeito na tela era Gabriele Tinti. O sorriso de Gabriele Tinti, a beleza de Gabriele Tinti. Não sei quanto durou, mas Norma e ele formaram um casal de uma beleza… Chega, porque senão, desse jeito, a ressaca emocional de ontem vai recomeçar.