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Saudades de Robert Aldrich…

Luiz Carlos Merten

03 Outubro 2016 | 09h45

Em 1963, no 16.º Festival de Cannes, O Leopardo, de Luchino Visconti, ganhou a Palma de Ouro, Harakiri, de Masaki Kobayashi, e Um Dia Um Gato, de Vojtech Janey, dividiram o prêmio especial do júri, Marina Vlady foi a melhor atriz por Ape Regina/|Leito Conjugal, de Marco Ferreri, e Richard Harris, o melhor ator, por This Sporting Life, de Lindsay Anderson. Armand Salacrou foi o presidente do júri, integrado, entre outros, pelo diretor Rouben Mamoulián, o ator Robert Hossein e o crítico Gian Luigi Rondi. A seleção dos EUA incluía Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, exibido fora de concurso, e O Sol É para Todos/To Kill a Mockingbird, que Robert Mulligan adaptou do romance de Harper Lee (e ganhou o prêmio Garry Cooper, de melhor filme na exaltação dos valores humanos). Havia um terceiro filme na seleção norte-americana, e era O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich. O que terá acontecido a Bob Aldrich, perguntavam-se os críticos, que não reconheciam naquele gran guignol as virtudes excepcionais que haviam feito do autor o grande revolucionário de sua geração, subvertendo, de dentro, os códigos do melhor cinema de gênero de Hollywood. Só com o tempo Baby Jane virou objeto de culto, mas, antes disso, o sucesso de público foi imenso e Aldrich construiu um estúdio, iniciando a segunda fase de sua carreira, ao refazer nos 1960 e 70 os grandes filmes dos anos 50. Fui procurar no livro de Michel Maheo, Robert Aldrich (Rivages/Cinema). Bette Davis e Joan Crawford se odiavam tanto que Aldrich, ao adaptar o livro de Henry Farrell, minimizou o conflito entre as irmãs Blanche e Jane, preferindo transformar sua ficção numa espécie de documentário sobre a animosidade entre as estrelas. Dois anos depois, de novo baseado em Farrell, Aldrich fez Hush Hush Sweet Charlotte/Com a Maldade na Alma. Esperava contar com Bette e Joan, mas a segunda, alegando doenças, caiu fora, sendo substituída por Olivia De Havilland. Embora muito bom, melhor que Baby Jane?, Charlotte nunca teve a mesma repercussão porque o público não aceitou Olivia, a doce Melanie de …E o Vento Levou, como vilã. Com Joan teria sido outra coisa, e olhem que, na época, ainda não se sabia da forma como ela tratava os filhos. Gran guignol na vida, retratado em livro e filme (Mamãezinha Querida, de Frank Perry, com Faye Dunaway). Por que lembro tudo isso? Porque fui ver O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, a versão teatral, um espetáculo de Charles Möeller e Cláudio Botelho, com direção do primeiro e interpretações de Eva Wilma e Nicete Bruno. O público delira e aplaude as ‘divas’ em cena aberta. Com todo respeito, achei um horror. Gostei, em parte, da trilha, emprestada a Bernard Herrmann (de Vertigo/Um Corpo Que Cai, clássico de Alfred Hitchcock), mas o resto… Nem as atrizes, que são a alma do espetáculo, estavam bem no sábado. Não entendi se aquelas falas truncadas eram um cacoete de direção ou se esqueceram o texto. Inclino-me, sorry, pela segunda hipótese. Fiquei frustrado, para não dizer constrangido. Mas o público amou. Não vou discutir quanto a isso, só acho que Eva Wilma e Nicete Bruno são duas grandes damas e mereciam uma direção de verdade.