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Saudades de ‘Klute’

Luiz Carlos Merten

02 Março 2011 | 09h56

Ainda não olhei os comentários – não sei se tem algum –, mas ontem, ao falar sobre ‘Bruna Surfistinha’ e listar filmes sobre prostituição, esqueci-me do que mais interessava, no caso. ‘Klute, o Passado Condena’, de Alan J. Pakula, com Jane Fonda no papel que lhe o primeiro Oscar. O filme é sobre detetive – é ele o Klute – que procura garota que desapareceu na cidade grande e sua investigação o leva até Bree Daniels, prostituta que se sente ameaçada por um homem (um cliente?) que já matou uma colega. ‘Klute’, como todo filme de Pakula, trata da crise produzida pela quebra de confiança, mas, se esse era o tema ‘geral’ do autor, este filme, em particular, mostra um Orfeu que vai ao inferno para tentar resgatar sua Eurídice (e consegue). Esqueçam o formato thriller psicológico, que não tyem a ver com ‘Bruna Surfistinha’. A semelhança está em outro departamento. ‘Klute’ tem uma cena antológica. Bree (Jane) acerta o preço com o cliente, uma coisa bem comercial. Ela tira a roupa, abre as pernas, ele salta dentro e a prostituta começa a gemer como se estivesse gozando loucamente. Mas enquanto o cara não ‘vem’ (coming é a palavra inglesa para o gozo, seja ejaculação ou orgasmo), ela, sem deixar de gemer, está de olho no relógio – e no próximo compromisso. Para a sua terapeuta, Bree conta que gosta de ser puta porque a situação lhe permite estar no controle (dos homens?), mas isso é falso, porque ela literalmente está aterrada por se sentir caçada. Bree, a prostituta liberada, no controle, é uma fantasia da personagem de Jane, como Bruna é uma criação fictícia de Raquel. No filme de Marcus Baldini, Bruna é adotada, criada numa família sem vínculos afetivos e essa, muito provavelmente, é a origem de sua relutância em reproduzir o modelo familiar convencional. Virar puta é uma reação, recusar o príncipe encantado é outra, mas Baldini lança esses elementos sem se preocupar em psicologizar. A viagem autodestrutiva culmina naquele corredor em que Bruna ‘dá’ para uma fila de homens, 20 ‘real’ a cabeça, até ter um colapso. Recusando a união que o personagem de Cássio Gabus Mendes lhe propõe, ela volta à prostituição, agora se sentindo de novo no ‘controle’ (como Bree) e o filme termina assim. Acho tudo isso muito interessante. Não sei se Deborah Secco viu ‘Klute’, não sei se Baldini também viu o filme de Alan J. Pakula, mas quero crer, no íntimo, que ele, sim. ‘Klute’ saiu em DVD? Não o tenho nem creio ter visto em algum lugar, rato de lojas de DVD (aquelas duas na Av. São João, entre a Ipiranga e o Largo Paissandu), como sou. É um puta filme, ‘Klute’. Um thriller que proporciona múltiplas leituras, complexo e apaixonante. E Jane é arrasadora.