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Cultura » Saudades da Stasi?

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Luiz Carlos Merten

18 Fevereiro 2011 | 22h59

BERLIM – Olá, já estou no dia seguinte de voces aí no Brasil. Acabo de chegar do cinema, onde assisti ao último filme que me faltava da competicao, o alemao wer Wenn Nicht Wir, cujo título em ingles é I Not Us Who, de Andres Veiel. Uma cronica dos anos de chumbo na Alemanha, centrada nas transformacoes dos anos 1960 e na radicalizacao política da qual o grupo Baader-Meinhoff foi a encarnacao. Achei o filme bem interessante, os atores bem bons e até compreenderia se o júri de Isabella Rossellini atribuísse algum premio a esse representante do cinema da Alemanha. Minha manhah comecou com The Forgiviness of Blood, de Joshua Marston, o diretor de Maria Cheia de Graca, que faz aqui o seu Abril Despedacado, contando uma daquelas histórias de vendetas das quais o albanes Ismail Kadaré possui o segredo. Aqui sao dois irmaos, um casal de adolescentes, colhidos no turbilhao de ódios familiares quando o pai comete um assassinato e o garoto precisa se confinar dentro de casa para nao ser morto. Marston escreveu um roteiro original, mas que nao é muito diferente daquilo que Kadaré escreveu e Walter Salles transpos para o Nordeste. O filme brasileiro é muito bonito, até demais – fotografia de Walter Carvalho -, o albanes (pois Marston filmou no país, usando a língua) é bárbaro como a paisagem que capta. Achei bem legal e os novos atores sao muito bons. Vou entrevistá-los pela manhah. Na sequencia, assisti ao thriller de Jaume Collet-Serra, diretor da série Rec, que a Warner vai distribuir no Brasil, Unknown. Ficamos todos nos perguntando o que um filme desses fazia na secao Berlinale Special, mesmo nao concorrendo. As explicacoes sao frágeis. Foi rodado em Berlim e Diane Kruger, estrela L’ Oréal, fez um tapete vermelho com pompa e circunstancia. A Berlinale, afinal de contas, nao é Cannes, mas um pouco de glamour garante a capa dos jornais locais. A maior curiosidade do filme – a história de um desmemoriado que se veh no centro de um comploh – é a reabilitacao da Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental, por meio do personagem de Bruno Ganz. É realmente muito estranho, mas no contexto do mundo globalizado, os alemaes comecam a ter saudades da sua antiga polícia secreta, é isso? Redigi materias para sábado e domingo e vi mais um filme no fim da tarde, Reed Bull, sobre um garoto que tem os testículos esmagados por um tipo insano e vira um adulto perturbado, em parte, ou bastante, porque se entope de hormonios e fica com a aparencia de troglodita. O filme é o Clube da Luta belga, e também é muito bom – melhor do que muitos filmes a que assisti aqui na selecao oficial. Além dos filmes, das matérias e das entrevistas, a sexta termina sendo estressante para mim, quando estou no exterior, porque tenho de encaixar a participacao nos programas das rádios de Sao Paulo (Eldorado AM) e Salvador (Metrópole).  Nao tenho tido sorte. Pela segunda semana nao falo para os baianos. queria aproveitar nao apenas as estreias de Bravura Indomita e Besouro Verde, mas também o lancamento, em DVD, de Music Box, acho que se chama no Brasil Muito Mais Que Um Crime, de Costa-Gavras, com Jessica Lange e Armin Mueller-Stahl. Ele recebeu a homenagem da Berlinale, um Urso de Ouro de carreira. Grande Armin. Merece um post especial, o que vou ver se faco amanhah. Agora, boa noite.