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Saudade (de um 2018 que está pintando bom para o cinema brasileiro?)

Luiz Carlos Merten

11 Janeiro 2018 | 14h30

Paulo Caldas foi meu companheiro de júri em Brasília, 2016. O festival homenageou-o, e ao Lírio Ferreira, exibindo a versão restaurada de Baile Perfumado. Contra tudo e todos, não é um filme pelo qual tenha muito apreço, e a revisão não ajudou. O que segura aquelas imagens (e a gramática mínima da narrativa) é a trilha. Chico Science na cabeça. O resto é resto. Paulo dirigiu também O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas e Deserto Feliz, que são apreciáveis, e tropeçou feio com O País Que Desejo. Fui ver hoje o Saudade, sem saber exatamente o que esperar, exceto que o trailer é bonito, bem editado, e cria expectativa. Vi o que me pareceu o melhor filme do Paulo, e confesso que ainda estou digerindo. A forma, não vou dizer fórmula, é ‘talking heads’, as cabeças falantes, entrevistas, alternadas com espetáculos de dança, shows de música e bailes populares. Para usar um termo da moda – o lugar da fala -, cativaram-me alguns depoimentos. Milton Hatoun falando sobre a origem árabe da palavra, Muniz de Brito remetendo ao seu significado ontológico – a nostalgia da perda do paraíso -, a cabo-verdiana Mayra Andrade (mulher mais linda!) com aquela fala que me tocou, o partir para voltar, querendo voltar, a irritação de Ruy Guerra (saudade, para ele, remete a morte, que é negação do futuro) e o passista que cita Bob Marley (‘Saudade não cabe no coração e escorre pelos olhos’). Gostei muito e acho que o filme problematiza a gente com suas camadas – sua riqueza. Saudade permite várias conexões – angústia, melancolia, até alegria, o amolecimento de que fala Karim Ainouz, e ele contradiz Deborah Colin de uma forma muito interessante. Ela diz que, no amor, a gente já pressente a saudade, o que está tanto de acordo com Vinicius (o amor é finito, eterno enquanto dura) quanto com José de Alencar (‘Tudo passa sobre a Terra’, no fecho de Iracema). Ele diz que o amor é totalmente presente no seu egoísmo – se tem saudade, é porque já era. Lembrei-me de François Truffaut, Jules e Jim – a saudade das coisas mortas que permanecem na lembrança e a das coisas vivas que vão desaparecendo… A saudade pode paralisar, e ao mesmo tempo é combustível criativo para músicos, escritores, artistas visuais. Acho impressionante, e revelador, que a palavra não exista em alemão, e só lamentei que o filme não aprofunde o vínculo com o carnaval.’Confete, pedacinho colorido de saudade…’ Talvez seja aquilo que Deborah Colkin fala sobre a linguagem do corpo, ou Zé Celso, tal Narciso, refletido no espelho, tergiversa sobre ‘drama’ e ‘tragédia’. Eu, de minha parte, tive uma epifania. Dois belos filmes brasileiros para iniciar o ano – Pela Janela e Saudade -; 2018 promete.