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Luiz Carlos Merten

26 Dezembro 2007 | 15h44

Falei há pouco em Fellini – um Fellini do qual não gosto, ‘A Voz da Lua’ – e me lembrei de uma conversa ontem com Antônio Gonçalves Filho. Encontrei-o no cinema, no Espaço Unibanco. Tinha ido ver ‘A Culpa É do Fidel’, Toninho foi ver ‘Conversas com Meu Jardineiro’ (e gostou do filme). Aliás, foi uma noite agradável porque encontrei também meu amigo ‘Vítor’ – é o pseudônimo que ele usa, ao comentar aqui no blog -, que foi ver um terceiro filme, ‘A Vida dos Outros’. Mas volto ao Fellini. Toninho comentou que reviu ‘Satyricon’, no fim de semana, e é um Fellini que não pára de crescer, talvez pelo simples fato de que em 1969, quando foi feito, estivesse muito adiante de sua época. ‘Fellini Satyricon’ é extraordinário como experiência audiovisual. A fotografia de Guiuseppe Rotunno, a direção de arte de Danilo Donati e a música de Nino Rota são geniais, mas tudo isso, o brilho dessas contribuições artísticas, está a serviço da imaginação de Fellini. Num filme marcado pela invenção constante, muitos momentos ficam na memória, especialmente o fogo que é retirado do meio das pernas de Donyale Luna e a morte do poeta, que, de alguma forma, retoma e amplia o suicídio de Steiner, em ‘A Doce Vida’, que já era, em 1960, um ‘Satyricon’ dos tempos modernos. Tomei um café com Antônio Gonçalves Filho, outro com o ‘Vítor’ e, como o meu filme era às 22 horas, atravessei a rua e fui à loja de discos em frente, que tem – informo para o caso de vocês já não saberem – toda uma seção de DVDs. Terminei comprando dois para dar a um amigo que adora comédias românticas, mas não são comédias e sim, os dois filmes mais românticos que conheço – ‘Desencanto’, de David Lean, com Celia Johnson e Trevor Howard, e ‘A Dama das Camélias’, de George Cukor, com Greta Garbo e Robert Taylor, cuja cena final, a morte da heroína, na minha cabeça faz um link direto com a morte de Agnes em ‘Gritos e Sussurros’, de Ingmar Bergman, que, não por acaso, era sueco como a Garbo. Esses nórdicos sabem fazer representações da morte como ninguém mais – veja-se, a propósito, ‘A Palavra’ (Ordet), do dinamarquês Carl Theodor Dreyer, que inspirou ‘Luz Silenciosa’, do mexicano Carlos Reygadas. Comprei esses dois para presentear, mas confesso que quero voltar à loja em busca de coisas para min. Encontrei, en passant, filmes de Wajda que nem sabia que tinham sido lançados no Brasil – ‘As Senhoritas de Wilko’, por exemplo. Filmes europeus, clássicos norte-americanos, de Hollywood, era tanta coisa que o cinéfilo, diante daquelas gôndolas, é capaz de pirar. Mas não não baratos, não. A média, por DVD, está em torno de R$ 40.