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Cultura » Sarafian, o grande (o maior?)

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Luiz Carlos Merten

27 Setembro 2011 | 09h54

Ainda a edição de ‘Cahiers’ a que me referi no post anterior. A revista dá conta de vários lançamentos importantes de DVD na França. Uma caixa de Edgar G. Ulmer, com seis discos e 12 filmes, incluindo clássicos como ‘Detour’/Curva do Destino e raridades como ‘Flor do Mal’, The Strange Woman. O resgate do mítico ‘Sal da Terra’, de Herbert Biberman, que reabre a polêmica sobre o mais engajado e militante diretor atingido pelo macarthismo – Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, não tem muito apreço por ele. Tudo isso é válido, mas o que me interessou, de fato, foram três lançamentos de Richard C. Sarafian. Por volta de 1970, ninguém era maior que ele no cinema de Hollywood, com dois filmes cults – ‘Corrida contra o Destino’, Vanishing Point, com roteiro de Guillermo Cain, aliás, Guillermo Cabrera Infante, e ‘Fúria Selvagem’, Man in the Wilderness, em que Richard Harris está genial. Pode parecer viadagem, mas não havia homem mais belo no mundo, nem Alain Delon, do que Richard Harris como Tyreen em ‘Juramento de Vingança’, Major Dundee, de Sam Peckinpah. A galanteria de Tyreen, na cena do baile com Senta Berger. Ecos de Rhett Butler. O texto de ‘Cahiers’, uma página inteira, faz a ponte entre a estrada de ‘Corrida’ e o Velho Oeste de ‘Fúria’ para sublinhar constantes estilísticas (e temáticas). O western, segundo Richard C. Sarafian – o terceiro filme, ‘The Man Who Loved Cat Dancing’, Amor Feito de Ódio, marca o detour do autor, sua curva do destino. É, ao mesmo tempo, o último grande filme de Sarafian e o início de sua vertiginosa decadência. No ‘Dicionário de Cinema’, Tulard diz que um dia será preciso fazer justiça a Sarafian. Não se faz outra coisa há mais de 20 anos. Eleanor Perry, ex-mulher de Frank, foi a roteirista de ‘Cat Dancing’. Ela sempre se queixou da traição a seu script, o que todo autor, sem desmerecimento da contribuição dos escritores, tem direito de fazer, porque o roteiro, sendo uma ferramenta importante, não é, em absoluto, uma bíblia que deva ser seguida ao pé da letra. Nunca saberemos o que houve naquele set, mas ocorreu um assassinato, a morte de um dublê, creio. O cara seria amante de Sarah Miles, atriz de Joseph Losey e David Lean, mulher do dramaturgo e roteirista Robert Bolt, e o estúdio, ao abafar o caso, criou sei lá que efeito infernal, mas muitas carreiras, não apenas a de Sarafian – a da própria Sarah, também –, entraram em parafuso a partir de ‘Cat Dancing’. Há algo de ‘Os Profissionais’ na trama de ‘Cat Dancing’. Lembram-se do western de Richard Brooks? Os quatro pistoleiros, incluindo Burt Lancaster e Lee Marvin, perseguem Jesus Raza, que sequestrou Claudia Cardinale e, no desfecho, descobrimos que a história é bem outra. Em ‘Amor Feito de Ódio’, outra mulher é sequestrada, mas Sarah Miles escolhe cavalgar, inclusive metaforicamente, com o pistoleiro Burt Reynolds, embora ele busque no corpo dela o que jamais poderá encontrar – o da pele-vermelha que foi seu grande amor, a Cat Dancing do título original. Tulard, sempre ele, define o clima do filme como ‘onírico’, mas poderia ser ‘bizarro’. Em ‘Fúria Selvagem’, Sarafian, de alguma forma, inventou Werner Herzog. Exagero, sei, mas um ano antes de ‘Aguirre’ e quase dez antes de ‘Fitzcarraldo’, ele criou um personagem com similaridades com os daqueles filmes. O caçador Richard Harris é dado como morto e abandonado, mas ressurge, por meio de ritos xamânicos dos índios, para se vingar, perseguindo o capitão John Huston, que carrega seu navio pelas planícies do Oeste. Que filme! Vamos botar no plural, que filmes, os da grande fase de Sarafian!