Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Saraceni

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Abril 2012 | 01h12

Fui ao teatro agora à noite. Fomos – Dib Carneiro e eu. A peça era ‘Namíbia, não’, direção de Lázaro Ramos, com Flávio Bauraqui, no Auditório Ibirapuera. Lamento dizer que não gostei, apesar do meu carinho e admiração pelos dois. A ideia é interessante – uma ação do governo decreta que todos os negros do Brasil, os afro-descendentes, serão deportados para a mãe África. Os dois últimos reagem à medida, discutem que atitude tomar. A peça me deu a impressão de ser uma anedota esticada, e quanto mais esticada mais tênue ficava, como se ninguém soubesse direito aonde ir com ela. Encontramos Neusa Barbosa e o Vita, marido dela, que foi nosso colega no Estadão. Neusinha me informou das últimas – o cancelamento do Festival de Paulínia, ao qual nunca fui – exceto para programas pontuais, os lançamentos de ‘Tropa de Elite 2’ e ‘Tempo de Paz’, para entrevistas com  José Padilha (e Wagner Moura) e Daniel Filho. Preciso me informar melhor antes de postar qualquer coisa sobre o assunto, mas aquela Babel hollywoodiana sempre me dava a impressão de que um dia ia acabar. Neusinha me informou também da morte de Paulo César Saraceni. Achei-o muito debilitado já no ano passado, em janeiro, quando foi homenageado no Festival de Tiradentes. O jovem Saraceni havia sido atleta – jogador de futebol – nos anos 1950, antes de fazer sua opção pelo cinema. Otávio de Faria e Lúcio Cardoso foram decisivos em sua formação e Saraceni fez filmes importantes – ‘Arraial do Cabo’, uma das obras definidoras do Cinema Novo, ‘Porto das Caixas’, ‘A Casa Assassinada’. Quando a versão teatral da ‘Crônica’ estreou no Rio, cheguei a pensar em reunir os dois diretores, o que fez a ‘Crônica’ no palco (Gabriel Villela) e o do cinema (Saraceni). Não deu. Saraceni frequentou o Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma. Era cria de Roberto Rossellini e Lúcio Cardoso. Como Antônio Carlos Jobim, foi um homem muito bonito. Poderiam ter sido galãs, e devem ter sido – os galãs da geração deles. Não há um filme de Saraceni pelo qual tenha uma admiração irrestrita. Mas acho que ele foi decisivo num duplo movimento, o de tentar incorporar novas estéticas e formas narrativas, com base no conceito rosselliniano da desdramatização do roteiro, e também na vontade de refletir sobre o Brasil, em filmes como ‘Capitu’, ‘Anchieta’ e ‘Natal da Portela’. Ninguém dava a impressão de ser menos carnavalesco no cinema – a ambição de Saraceni era a tragédia -, mas o carnaval o fascinava. ‘Amor, Carnaval e Sonhos’, ‘Natal’. Nenhum filme de Saraceni me desgostou tanto quanto ‘O Viajante’ e, até como reação àquele desastre que me pareceu constrangedor (certas cenas com Marília Pêra), me encantou o amadorismo assumido de seu documentário sobre a Banda de Ipanema. Devo ter sido o único a elogiar o filme. Talvez esteja sendo agora duro com ele, mas eu o admirava e reverenciava como pessoa. Mesmo quando o criticava, Saraceni foi sempre um príncipe comigo. Na homenagem em Tiradentes, Júlio Bressane integrou a mesa. Saraceni falou pouco. A voz era arrastada, o pensamento, lento, em consequência do estado de saúde. Bressane foi encantatório. Falou do amigo e do artista, invocou pintura e filosofia. Quase me senti culpado. O meu Saraceni? Com todos os defeitos que possa ter, é ‘O Desafio’. Oduvaldo Vianna Filho conduz Isabella por aquela casa em ruínas. É uma imagem emblemática da época, como o canto firme de Maria Bethânia – ‘Carcará/pega, matá e come.’ Os anos 1960 incentivaram a resistência e produziram obras políticas como ‘Terra em Transe’, de Glauber, e ‘O Bravo Guerreiro’, de Gustavo Dahl. ‘O Desafio’ é dessa cepa. Foram-se todos, esses autores. Os filmes continuam.

Encontrou algum erro? Entre em contato