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Cultura » ‘São Bernardo’ e a sublime Isabel Ribeiro

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Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2008 | 10h43

Tenho olhado diariamente meus e-mails, até porque preciso fazer isso para validar os comentários no blog, mas confesso que me passou batida a divulgação de um evento que ocorreu anteontem (terça-feira). Houve uma exibição especial, seguida de debate, de ‘São Bernardo’, que Leon Hirszman adaptou de Graciliano Ramos. O filme já havia inaugurado o Festival de Brasília e essa nova versão – restaurada – também foi lançada em DVD, pela Videofilmes. Não sei se falo de Leon, pai de minha colega – crítica de visuais no ‘Caderno 2’ – Maria Hirszman, ou do velho Graça. Não me lembro de outro caso no cinema brasileiro, até mundial, de outro autor que só tenha inspirado obras-primas. Não são muitos casos, de qualquer maneira, mas as duas adaptações de Nelson Pereira dos Santos (‘Vidas Secas’ e ‘Memórias do Cárcere’) e a de Leon Hirszman fazem de Graciliano Ramos um iluminado no cinema. Não gosto do filme ‘comercial’ de Leon, ‘Garota de Ipanema’, e mesmo gostando tive a sensação de que ‘Eles não Usam Black-Tie’ ficou datado, na última vez em que assisti ao filme. Em compensação, ‘A Falecida’ foi uma descoberta para mim e entendi o que Fernanda Montenegro me havia dito numa entrevista – Leon Hirszman foi muito criticado, nos anos 60, porque sua adaptação de Nelson Rodrigues não tinha humor. Foi uma crítica muito freqüente na época. Fernanda me observou, en passant, que poucos haviam entendido o humor ‘judaico’ de Leon. É verdade – adorei o filme quando o revi na mesma programação especial que me permitiu revisar ‘Black-Tie’. Leon Hirszman dirigiu duas vezes a maior das atrizes brasileiras – Fernanda, quem mais? -, mas eu preciso dizer uma coisa. Ninguém, nem Fernanda, consegue ser melhor do que Isabel Ribeiro no sublime desfecho de ‘São Bernardo’, quando a câmera se move lentamente e ela fala, fala, um monólogo interminável, mas denso e profundo, no qual expõe toda a amargura de sua relação com Honório, cuja obsessão pela propriedade terminou por incluir a própria mulher (e isso a destruiu). Considero a participação de Isabel Ribeiro em ‘São Bernardo’ um dos grandes momentos de interpretação feminina da história do cinema brasileiro – com a Glauce Rocha de ‘Terra em Transe’, a Fernanda Montenegro de ‘Central do Brasil’, a Íris Bruzzi do episódio de ‘As Cariocas’, a Odete Lara de ‘Copacabana Me Engana’ e mais uma meia-dúzia de atrizes que carrego comigo. Isabel morreu há muito tempo, mas imagino que Othon Bastos, que participou do debate de terça-feira, pudesse comentar – espero ue o tenha feito – aquele travelling avante que também é um plano-seqüência genial. Fernanda Montenegro me contou que Leon ensaiava muito com os atores. Ela relatou o clima quase de religiosidade no set, no final de ‘Black-Tie’ – de novo com Othon Bastos -, na cena em que cata feijão e vai eliminando os grãos podres, numa metáfora do drama daquela família (e da classe operária que, em outros tempos, tentava ir para o paraíso por meio da unidade sindical). Quantas vezes Leon terá ensaiado o monólogo de Madalena (Isabel Ribeiro)? Quantas filmou? Uma, duas, dez? Quem souber, me responda, por favor.