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Luiz Carlos Merten

12 Janeiro 2009 | 23h46

Sou suspeito, reconheço, porque se há coisa que eu nunca quis ser na vida é isento. Em princípio, já gosto de Baz Luhrmann e de sua trilogia da cortina vermelha, formada por ‘Vem Dançar Comigo’ (Strictly Ballroom), ‘Romeu + Julieta’ – na verdade, este é o de que menos gosto do trio – e ‘Moulin Rouge’, o meu preferido, como manifesto do cinema impuro do diretor australiano. Assisti agora à tarde a ‘Austrália’, o épico de Luhrmann com Nicole Kidman, que há tempos, praticamente desde que ganhou o Oscar, necessitava desesperadamente de um bom papel, e Hugh Jackman. Sei que tem gente que detesta ‘Moulin Rouge’, que acha o filme insuportável e, querendo falar mal, já que a proposta é o artifício, diz que toda geração tem o ‘Lola Montès’ que merece. Realmente, e isso já era o que diziam do próprio clássico de Max Ophuls, que eu tive a felicidade de (re)ver em Cannes, no ano passado, numa cópia zero bala, restauradíssimo. ‘Lola Montès’ demorou um tempão para ser reconhecido, o que só ocorreu bem após a morte (de ‘chagrin’) de seu autor, que não resistiu a ver sua obra-prima mutilada. ‘Lola Montès’ é maravilhoso, mas, fazer o quê, ‘Moulin Rouge’ é melhor. Com esse sentimento todo, acho que não é de admirar que tenha gostado (muito) de ‘Austrália’, Se ‘Moulin Rouge’ mistura o que parece impossível (‘Rocco e Seus Irmãos’ com ‘Lola Montès’), Baz Luhrmann fez aqui o seu ‘Giant’ (Assim Caminha a Humanidade), quase tão bom quanto o monumento de George Stevens sobre a formação do Texas. Isso é só um recadinho. Hoje não vou entrar pela madrugada postando. Preciso me concentrar para fazer minhas críticas sobre ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’, esquecidíssimo no Globo de Ouro – pior para o prêmio -, e ‘Beijo na Boca, não’. Eu confesso que, às vezes, me pergunto em que mundo vivo. Não sabia da existência desse filme de Resnais até muito recentemente. É o meu lado macunaímico. Tenho a maior preguiça de ler o material que me enviam. O catálogo da mostra Resnais no CCBB me foi enviado, mas como o do Robert Altman, no qual colaborei, nem abri (e não foi por desprezo, não). Estive várias vezes no CCBB durante o evento, fui até (re)ver ‘Muriel’ e nunca topei com a opereta do Resnais. Arre! Depois, fiz matéria do Festival Varilux, no qual o filme também foi exibido, mas foi com os diretores que acompanharam o evento no Brasil. Quando entrei no HSBC Belas Artes no sábado, não fazia a menor idéia do filme a que ia assistir. Minha primeira surpresa foi saber que era com Audrey Tautou – Sabine Azéma, Pierre Arditi e Lambert Wilson, afinal, já são ‘resnaisnianos’ de carteirinha. Fiquei em êxtase e confesso – é o lado ‘diário’ do blog – que adorei ter visto o filme numa sala inteirinha só para mim. Teve uma hora em que eu cheguei a me levantar e abrir os braços para a tela, pensando comigo – ‘Santo Resnais!’ Vou ficar devendo favor por isso? A quem? Não mais do que assistindo amanhã à noite com os coleguinhas à apresentação da sala IMAX do Shopping Bourbon para a imprensa. Só espero estar inspirado e fazer textos à altura da motivação que esses dois (grandes) filmes me produziram.

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