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Luiz Carlos Merten

06 Abril 2007 | 23h03

PORTO ALEGRE – Já disse e repito que não gosto de ficar repercutindo no blog as matérias do Caderno 2. Na edição de hoje, para aproveitar a data – a Sexta-Feira Santa, que está terminando -, falo, no jornal, de uma série de filmes bíblicos e/ou religiosos que estão sendo lançados em DVD. O carro-chefe dos lançamentos é Santo Agostinho, de Roberto Rossellini, que sai pela Versátil, com o capricho característico da distribuidora, no que se refere a extras. Se volto a Santo Agostinho é por dois motivos. O primeiro, obviamente, é o filme – e seu autor. Rossellini é um diretor que, nos últimos anos, ou décadas, tem sido submetido a uma dura (re)avaliação. Ninguém nega sua importância na eclosão no neo-realismo, com Roma, Cidade Aberta, nem o efeito que a chamada desdramatização do roteiro de Viagem na Itália teve sobre o cinema moderno (de Godard a Truffaut e Saraceni). Mas o restante da produção de Rossellini tende hoje a ser negligenciado. No começo dos anos 50, em pleno neo-realismo, ele já havia feito Francesco, Giullare di Dio, Francisco, Arauto de Deus, usando a figura do poverello de Assisi para discutir questões pertinentes à fé, à religiosidade e à Igreja como depositária da Palavra (ou do exemplo) de Cristo. Francesco é de 1950/51. Santo Agostinho foi feito mais de 20 anos depois (em 1972). Rossellini havia desistido do cinema e aderira com entusiasmo à TV. Achava que ela era o meio ideal para seu projeto didático de popularização da grande cultura. Foram telefilmes como A Tomada do Poder por Luís XIV e toda a série dedicada aos filósofos – Sócrates, Pascal e Agostino (Agostinho) de Hippo. Este último atraía Rossellini porque havia formatado o próprio conceito da sociedade cristã ocidental. Num momento de crise – Roma saqueada pelos visigodos, o império acossado pelos bárbaros -, Santo Agostinho havia colocado a cristandade perante o dilema. Havia um mundo em decomposição e havia a cidade de Deus. A quem servir? Em 1972, em plena Guerra do Vietnã, com crises da ecologia e da energia, a idéia de um novo fim era forte e justificava o retorno a Santo Agostinho. É uma ficção, é um documentário? Um docudrama? Há mais de 30 anos, Roassellini já antecipava grandes questões que repercutem no cinema brasileiro atual – Serras da Desordem, claro. Não creio que seja um grande filme (Santo Agostinho), mas propõe questões fundamentais, sobre estética, ética e até teologia. Até aqui, sinto que estou repetindo o Caderno 2, mas se voltei a Rossellini foi por outro motivo, o segundo, que agora assinalo. Mesmo correndo o risco de receber críticas e pedradas, acho que não existe um livro (sobre um autor e seu cinema) melhor do que The Adventures of Roberto Rossellini, de Tad Gallagher, publicado pela Da Capo Press, com o aval da Library of Congress Cataloging in-Publication Date. Uma biografia que pode ser lida como um romance de aventuras e a mais acurada análise de um autor que foi (e continua sendo) decisivo, apesar de todas as tentativas para desmontá-lo da história. Rossellini foi único. Diretor, autor, bon vivant e um intelectual tão engajado quanto apaixonado. Gallagher, que já havia dissecado John Ford (The Man and His Films), analisa a obra e conclui que ela é indesligável da vida de Rossellini. Ele amava mais as mulheres que os filmes e cada período de sua vida corresponde a uma mulher. Anna Magnani, Ingrid Bergman, Sonali das Gupta etc. Truffaut se identificava muito com esse lado da personalidade de seu amado Rossellini. Patrice Leconte, que foi assistente de Truffaut, me disse certa vez que, seguindo o exemplo de Rossellini, ele fazia filmes com (e para) as atrizes com quem queria ir para a cama. Não sei, sinceramente, se existiria interesse editorial por um livro como o de Gallagher, mas acho que seria bem-vindo. Infelizmente, este segmento virou feudo de meia-dúzia de especialistas que a mim, pelo menos, aborrecem profundamente. Só banalidade, só repetição de conceitos, só preconceito. Saindo para a viagem ao México, apanhei um livro que havia recebido, sobre Cinema e História. Comecei a ler no avião e fui passando de capítulo para capítulo, com verdadeiro enfado. Teria sido melhor se tivesse levado o livro de Tad Gallagher para (re)ler. Confesso que tenho paciência para pouca coisa, mas The Adventures of Roberto Rossellini, Print the Legend (sobre John Ford) e o livro sobre a parceria (e a ruptura) entre Kurosawa e Toshiro Mifune são minhas bíblias no que se refere a livros de cinema. Já que estou tratando do assunto Hitchcock’s Films, de Robin Wood;Fritz Lang in America, de Peter Bogdanovich; e Conversations with Joseph Losey, de Tom Milne, vêm logo em seguida. Nenhum desses livros foi editado no Brasil. Nenhum!

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