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Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2008 | 17h31

BERLIM – Entrevistei ontem à tarde o diretor Paul Thomas Anderson e os atores Daniel Day-Leis e Paul Dano, de ´There Will Be Blood´, que se chama ´Sangue Negro´ no Brasil, onde aliás, estréia na próxima sexta-feira. Havia ficado decepcionado porque, ao invés das tradicionais ´round tables´, a assessoria informou que seria uma mini-press conferece. Acontece que o grupo nao era tao grande e a entrevista durou cerca de uma hora, o que permitiu que fizesse perguntas aos tres. Gostei bastante do filme, mas acho que, mais do que temas, o Anderson viu no romance de Upton Sinclair (´Oil´) um extraordinário estudo de personagem. Ele concorda e até diz que nao quis fazer nenhum comentário político sobre a sociedade norte-americana, muito menos a atual. A questao é que Upton Sinclair é tao político que mesmo apenas ´roubando´ partes do livro (as primeiras 150 páginas de um total de 500), o diretor termina fazendo (ou falando de…) política. Como já disse, o filme estréia sexta no Brasil. Vamos poder voltar a falar em seguidinha sobre ´Sangue Negro´. Daniel Day-Lewis é excepcional como este homem que a tudo e a todos destrói, e que tem algo de Charles Foster Kane. Por maior que seja minha admiracao pelo ator, nao tive muita paciencia com ele. Daniel faz o genero cool, de quem nao está nem aí para o ´sistema´. Só que ele me parece um rebelde posado. Bem que gostaria, mas nao fui louco de perguntar o que me interessaria saber. Daniel teve um filho com Isabelle Adjani, Gabriel. Quando rompeu com ela, rompeu também com Gabriel. É como se ele nao exitisse mais. Li na revista de bordo da Air France que o assunto é tabu. É só falar no Gabriel que o Daniel interrompe a entrevista. No filme, o personagem renega o próprio filho. Será que foi uma espécie de exorcismo para Daniel Day-Lewis? Só mais uma coisa. O filme é muito telúrico, muito ligado às coisas da terra. Ao mesmo tempo, tem esta dimensao bíblica, da qual o título dá conta (Anderson pensou inicialmente em ´There Shall Be Blood´). Tudo isso me parece próximo de Terrence Malick. Mera coincidencia? Anderson diz que o filme deve muito a duas pessoas. Sem Daniel Day-Lewis, ele nem faria ´Sangue Negro´. A outra é Jack Fisk, o grande diretor de arte, marido de Sissy Spacek e colaborador, entre outros, de David Lynch e, principalmente, Terrence Malick. Quem sabe esta impressao meio a Malick que o filme me produziu nao tem a ver com a direcao de arte do Jack Fisk, que o próprio Anderson considera tao importante? Pode ser, mas agora chega. Sei que vou matar muitos de voces de inveja, mas sabem o que estou indo ver? ´Sparrow´, de Johnny To. Bye!