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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2008 | 15h37

Não querendo ser piolhento – vocês conhecem a história? A mulher chamava o marido de piolhento, para espicaçá-lo; ele a afogou e ela, nos estertores, conseguiu tirar as duas mãos de dentro d’água e fez o gesto de quem mata piolho –, mas deixem-me voltar ao Oscar e ao ‘Sangue Negro’. Não gostei particularmente do filme nem do ator (Daniel Day-Lewis) e até acho que do ponto de vista da linguagem, estrutura, isto é, como cinema, é mais convencional do que os grandes filmes do diretor Paul Thomas Anderson, aqueles de que realmente gosto (‘Boogie Nights” e ‘Magnólia’). Mas tenho para mim que, como tentativa de interpretação da ‘América’, o filme do Anderson é muito mais denso do que o dos Coens. Conversei sobre isso agora de manhã, aqui na redação do ‘Estado’, com Antônio Gonçalves Filho, que respeito bem mais do que coleguinhas que se auto-intitulam ‘críticos’, mas ainda estão no bê-a-bá. Toninho amou o filme do Anderson e o ator, então, nem se fala. Lembro-me de que em Berlim, o diretor disse que não adaptou o romance (‘Oil’) de Upton Sinclair para fazer um comentário sobre a sociedade atual dos EUA. Ele roubou parte do livro (as primeiras 150 páginas, num total de 500) para fazer o que lhe interessava – um estudo de personagem (o do Daniel). Mas seja porque o Sinclair era comunista de carteirinha, seja porque o tal personagem se presta a isso, a crítica é forte e está lá embutida. Nunca vi, pelo menos em anos recentes – talvez no Richard Brooks de ‘Entre Deus e o Pecado’ (Elmer Gentry), baseado em outro Sinclair, o Lewis, existisse essa discussão poderosa sobre capitalismo e religiosidade (fanatismo) nos EUA, mas eu teria de rever o filme antigo para avaliar. O que Anderson mostra é que não são fatores antinômicos. não existe oposição e este é o inferno da sociedade norte-americana. Os capitalistas estão lá no fundo do poço, atrás do combustível – petróleo, ouro ou sangue – que os alimenta. Os crentes estão com a cabeça no céu. Todos são obsessivos, pensam exatamente igual e ninguém caminha na Terra – talvez o filho do personagem de Daniel Day-Lewis, o mudo, quando o pai o renega e ele diz que, felizmente, não tem o seu sangue. Se ‘Onde os Fracos não Têm Vez’ é sobre fronteiras – de gêneros e espaços, internos e externos –, ‘Sangue Negro’ é sobre a América profunda, a que apoiou George W. Bush e aí, a despeito do diretor, o filme é sobre os EUA na atualidade. E o prêmio de fotografia foi merecido, para mim mais até do que o de ator. Em Berlim, Anderson falou da colaboração com o fotógrafo Robert Elswit e da intenção de ambos de trabalhar a imagem influenciados pela pintura norte-americana do começo do século passado. Termino admitindo, para mim, lá no íntimo, que o filme é redondo, como conceito e execução, o que, de qualquer maneira, não ofusca meu deslumbramento pelo trabalho de ‘edulcoração’ (é isso, não?) que Joe Wright fez do romance de Ian McEwan em ‘Desejo e Reparação’, cujo classicismo e romantismo foram o máximo no Oscar 2008, independentemente do que pensam a academia e seus votantes.