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Luiz Carlos Merten

10 Junho 2007 | 13h37

Little Big Horn foi cenário de uma importante batalha entre os índios e a Cavalaria. Uma coalizão de tribos sob a liderança de Touro Sentado, que costurou a aliança, não apenas derrotou como massacrou o destacamento comandado pelo lendário general George Armstrong Custer. Lendário é bem a definição – Custer foi o mais jovem general do Exército americano e construiu seu nome desde a Academia Militar de West Point. Em 1941, enquanto Orson Welles estava revolucionando a linguagem do cinema com Cidadão Kane, Raoul Walsh andava muito atarefado fazendo quatro (quatro!) filmes na empresa Warner. Um deles virou clássico de gângsteres – Seu Último Refúgio (High Sierra), com Humphrey Bogart e Ida Lupino. O outro foi uma comédia – Uma Loira com Açúcar, com James Cagney e Olivia De Havilland. O terceiro foi uma jóia – Manpower, que no Brasil se chamou Aquela Mulher, com Marlene Dietrich como cantora de cabaré às voltas com dois trabalhadores (James Cagney e George Raft, famosos astros de filmes de gângsteres). O último, e meu favorito, foi O Intrépido General Custer, que tem o sugestivo título original de They Died with Their Boots On, com Errol Flynn e Olivia De Havilland. O filme é um western que conta a história de Custer desde West Point até Little Big Horn. Hoje, pode-se dizer que é uma falsificação total, mas, na época, o que se conhecia do episódio permitiu a Walsh tecer a fantasia de um Custer que parte para Little Big Horn, à frente de seus homens, consciente de que serão massacrados, mas tem de fazê-lo em defesa dos índios, por uma questão de consciência! A cena da despedida de Custer da mulher é antológica. Flynn, galante como ele só, se curva perante Olivia De Havilland, e diz que viver com ela foi seu privilégio. Ele sai de cena, a câmera se afasta em travelling e Olivia, devorada pela intensidade dos sentimentos, cai desmaiada. Ela também sabe que ele vai morrer – na cena anterior, ela foi pedir ao tio, secretário do Interior ou da Guerra, sei lá, que dê o comando da missão ao marido. Sete anos mais tarde, quando John Ford fez Forte Apache, o envolvimento dos EUA na 2ª Guerra criara condições para que historiadores independentes apresentassem sua versão de Little Big Horn e, nela, Custer foi um louco militarista que matou seus homens porque queria a glória de ser o general que havia derrotado os índios. Forte Apache, que no Brasil se chamou Sangue de Herói, trata disso. De novo, é uma história sobre a construção da comunidade e o processo civilizatório. John Wayne é o oficial deste forte ao qual chega o novo comandante, interpretado por Henry Fonda. Ele não se chama Custer, mas é o próprio. Não liga para o fato de estar sitiado pelos índios nem que eles sejam mais numerosos, muito menos com a vida de seus comandados. Fonda quer a guerra com Touro Sentado. Termina massacrado com seus homens. Sangue de Herói se constitui no primeiro título da célebre trilogia da Cavalaria, que Ford fez entre 1948 e 50. No ano seguinte, ele fez She Wore a Yellow Ribbon, lançado como Legião Invencível. John Wayne faz o oficial que está se aposentando, mas não quer abandonar seus homens na véspera da guerra contra os índios. É o filme em que Wayne, o Duke, visita o cemitério para conversar com a mulher, que morreu. A guerra com os índios volta no fecho da trilogia, Rio Grande, que foi lançado no Brasil como Rio Bravo, mas recuperou o título original na TV paga, para diferençar do Rio Bravo de Howard Hawks, de 1959, também com Wayne (e que foi lançado como Onde Começa no Inferno). Rio Grande passa amanhã na TV paga, às 19h45 no Telecine Cult. John Wayne é um oficial que vive separado da mulher. O filho se alista no Exército e chega ao forte comandado pelo pai. A mãe, Maureen O’Hara, vem atrás para proteger a cria. A família disfuncional pode ser vista como metáfora da pátria, em plena guerra interna. Por mais belos que sejam os filmes da Cavalaria de Ford, e você pode comprar o DVD de Sangue de Herói baratinho nas Lojas Americanas, o próprio Ford fez sua autocrítica e, no começo dos anos 60, fez Crepúsculo de Uma Raça (Cheyenne Autumn) para se purgar, como dizia, do fato de haver matado mais índios que o general Custer – na tela. Ford, que costuma ser comparado a Homero – seria o Homero do cinema –, forjou com seus westerns o mito fundador da América. Ao reverenciar o passado, fez dele o território de criação dos mitos. Podia ser paternalista, como Lincoln, cuja história contou – em A Mocidade de Lincoln, de 1939, com Henry Fonda –, mas não era excludente. Não só dignificou negros e índios, individualmente – e os segundos coletivamente no Crepúsculo –, como os integrou no harmonioso paraíso que sua imaginação criou no cinema. No desfecho de Ao Rufar dos Tambores, também de 1939 (e com Henry Fonda), um negro e um índio saúdam a bandeira americana. E pensar que, naquele ano, Ford também fez Stagecoach (No Tempo das Diligências). Ford, Walsh, aqueles velhos eram fo… go! Acertavam até quando erravam. Sangue de Herói contradiz O Intrépido General Custer, que a Warner lançou em DVD, mas ambos, e o segundo, mais ainda, são grande cinema.