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Sandra, pungente e triste

Luiz Carlos Merten

26 Maio 2008 | 10h12

PARIS – Nâo estou dando sorte. Havia tentado salvar o post anterior no aeroporto de Nice, sem conseguir. Pude fazê-lo somente aqui em Paris, no pequeno hotel em que gosto de ficar, junto a Notre Dame e ao Sena, após instalar – com ajuda de Elaine Guerini, é verdade – o wi-fi. Preciso sair para comer, já são quase 3 da tarde, mas quero falar da vitória de Sandra Corveloni como melhor atriz do 61.o Festival de Cannes. Não pensava na Sandra como melhor atriz, e não porque achasse que existam outras melhores do que ela, como acho que existem melhores atores do que o Benicio Del Toro, recompensado por ‘Che’. Simplesmente, o filme de Walter Salles e Daniela Thomas é coral e, para fazer a coisa certa em relação a ‘Linha de Passe’, o júri presidido por Sean Penn teria de dar ao filme um prêmio conjunto, para todo o elenco. Pensava muito mais em ‘Linha de Passe’ como melhor roteiro, melhor direção e até o Grand Prix, já que não duvidava de que Laurent Cantet venceria a Palma de Ouro com ‘Entre les Murs’. O prêmio de melhor atriz foi uma boa surpresa, e Walter na coletiva destacou que, se o festival premiara um sujeito centenário – Manoel de Oliveira – como cineasta mais jovem do mundo, o júri, por sua vez, escolhera uma jovem atriz estreante (em cinema) de 45 anos. Daniela Thomas, falando em português no palco do Grand Théâtre Lumière, contou que Sandra não estava ali, por problemas de saúde, porque sofrera um aborto. Não quero invadir a privacidade de ninguém. Simplesmente dizer que um prêmio muito provavelmente não diminui a dor que Sandra pode estar sentindo, mas não é pouca coisa ser reconhecida como melhor atriz num evento como Cannes, o maior festival do mundo. Transcrevo o que escreveu ‘Nice Matin’, aprovando a escolha – ‘Son jeu, poignant et sobre, a séduit le júri, qui a donc décidé de propulser la comédienne brésilienne au devant de la scène festivalière’. Grande Sandra, pungente e triste, uma grande atuação que se constitui agora no segundo prêmio importante do cinema brasileiro em 2008, nos maiores festivais do mundo. Depois do Urso de Ouro para ‘Tropa de Elite’ e o prêmio de interpretação feminina para ‘Linha de Passe’, quem for representar o Brasil em Veneza – tomara que tenhamos filmes na competição, não apenas em mostras paralelas – terá responsabilidade redobrada.