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Sanaúd!

Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2017 | 00h02

Queria muito ver Out of Frame/Fora do Quadro, e fui. O média de Mohanad Yaqubi (62 minutos) foi precedido por Sanaúd/Voltaremos (44 minutos) e depois houve um debate. Rami Nihawi, Milton Barbosa e um terceiro debatedor que vou ficar devendo. Rami é o diretor de Yamo, Milton é ativíssimo no Movimento Negro Unificado. Sanaúd documenta a viagem que uma delegação brasileira fez ao Líbano em 1980, encontrando-se com Yasser Arafat. Milton integrava o grupo. Três anos depois eclodiu o movimento pelas diretas-já e lideranças árabes e palestinas no Brasil iam aos comícios em apoio ao movimento pela redemocratização. Como diz Arafat no documentário, ninguém pode ser revolucionário se não for internacionalista. Na sequência de Sanaúd passou Out of Frame. Já me acostumei a não encontrar coleguinhas em eventos alternativos, militantes, mas ainda me choco. Zero críticos, e os de internet nem se fala. Só lotam cabines de blockbusters. Fora do Quadro é sobre a luta do povo palestino não apenas por uma terra para dizer que é deles, mas também sobre a luta pelo direito de imagem. Confesso que todas aquelas imagens de bombas e massacres – de crianças! – me chocaram menos que uma frase de Golda Meir, a ex-premier de Israel. ‘Palestinos? Nunca ouvi falar, não existem’, por aí. Me bateu uma tristeza profunda. Golda Meir, como personagem de ficção, tem aquela frase que me emociona em Munique, o fecho da trilogia informal de Steven Spielberg sobre o 11 de Setembro. Quando o gabinete de Israel discute até onde chegar na caçada aos árabes que atacaram a delegação na Olimpíada, ela diz a frase chave. “Cuidado, porque se a gente não tratar humanamente nossos inimigos nós é que correremos o risco de perder nossa alma.’ Gostei muito de ter visto Out of Frame e por mim teria ficado até o fim do debate, mas precisei sair. Jean-Luc Godard participa e diante das imagens dos judeus chegando em Haifa, na praia, diz que aquilo é ficção e que os árabes saindo são ‘documentário’. Amos Gitai fez um grande filme sobre o assunto – Kedma. E Golda Meir, para voltar a ela, também faz sua autocrítica num livro autobiográfico, A Minha Vida. Até onde me lembro, ela diz que não esperava aquela debandada dos árabes, logo após a criação do Estado de Israel. E sou capaz de jurar que Golda conta que ficou durante horas naquela praia, literalmente implorando aos árabes de Haifa que não saíssem, porque tinha consciência de que um abismo intransponível estaria se cavando. Pode ser que me engane, mas prefiro crer na grandeza humana. Tenho gostado muito de tudo o que estou vendo na Mostra Mundo Árabe porque, na verdade, o que me parece estar em xeque nessa curadoria sobre ‘os territórios que nos atravessam’ é o mundo em que vivemos, com sua guinada à direita. Como é que dizia a Passionária? ‘No pasarán’. Adaptando – ‘No vencerán’. A Mostra ainda dura mais dois dias, na terça e quarta. Somente hoje descobri que já passou um filme que me impressionou muito quando o vi em Paris, em fevereiro, no Space Saint Michel, após Berlim – 3000 Noites, de Mai Masri. Uma palestina é presa numa cadeia israelense de máxima segurança. Está grávida. Contra toda pressão, ela tem o filho e o cria no cativeiro. Quem viu – passou dia 11 – sabe do que estou falando. 3000 Notes é sobre escolhas, e como mudam a vida da gente.