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Luiz Carlos Merten

25 Agosto 2009 | 14h40

Volto ao tema ‘Jardim das Cerejeiras’, a montagem da peça de Chekhov que Gabriel Villela, Thiago Lacerda e Vanessa Loes assistiram em Londres. Gabriel ficou entusiasmado com a forma como o diretor Sam Mendes faz cinema no teatro. Não, a montagem não utiliza telão nem qualquer outro recurso para projetar imagens. Pelo que Gabriel e Thiago contaram, a coisa é muito mais conceitual (e sofisticada). Trata-se de uma maneira de posicionar os atores, dirigir a luz e modular a palavra para conduzir o olhar do espectador, como no cinema, uma coisa rítmica, que eu tento sugerir para vocês aqui (como eles sugeriram para mim), mesmo consciente de que é difícil de ‘visualizar’. Fiquei indignado quando Sam Mendes ganhou um Oscar que, para mim, deveria ter sido outorgado a Michael Mann, por ‘O Informante’. Não gostei muito de ‘Beleza Americana’ e, nas sucessivas vezes em que (re)vi o filme, depois – na TV paga, principalmente –, sempre me incomodou o tom meio artificioso, que passava certamente pela fotografia de Conrad Hall, com aquela imagem emblemática da garota em seu colchão de pétalas. Anos mais tarde, quando vi ‘Pecados Inocentes’ (Little Children), de Todd Field, com a mulher de Sam Mendes na realidade – Kate Winslet –, pensei que aquilo é que ele talvez gostaria de ter feito (e a academia, agora, não iria reconhecer o filme justamente por causa do precedente de ‘American Beauty’, que não me parece tão bom quanto ‘americana’ ou olhar sobre a ‘suburbia’). Lembro-me de haver discutido o filme com Amy Irving, ainda casada com Bruno Barreto, numa entrevista por causa de ‘Bossa Nova’ (que também é de 1999). Amy defendia o filme de Sam Mendes, considerava-o ‘novo’ em termos de dramaturgia americana e eu insistia que qualquer Nelson Rodrigues é melhor. Terminei gostando tardiamente de Sam Mendes, graças a seu filme sobre a Guerra do Iraque, que ninguém gosta, e ‘Revolutionary Road’, Apenas Um Sonho. O último é muito bom – uma obra-prima? – e, mesmo gostando de ‘O Leitor’, com certas reservas, tenho de admitir que Kate mereceria seu Oscar muito mais pelo filme do marido, e não pelo de Stephen Daldry. Acho que foi ‘Jarhead’, Soldado Anônimo, com Jake Gyllenhaal, que me esclareceu o projeto de Sam Mendes, sua maneira de usar a figura do pai para falar dos filhos (e fazer sua crítica da sociedade dos EUA), que já está em ‘Beleza americana’ e ‘Estrada para Perdição’. O filme sobre o Iraque, por exemplo, usa a guerra de Bush pai para esclarecer a de Bush filho. Muito interessante – adoraria conferir esse ‘Jardim das Cerejeiras’. Who knows…?