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Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2010 | 09h30

TIRADENTES – Estava ontem entre sessões da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes quando liguei, por volta das 8 da noite, para meu colega – e editor interino – Ubiratan Brasil, para discutir algumas pautas, e ele me disse que estava na pauleira, porque havia morrido J.D. Salinger. Na hora, não tive tempo de processar a informação e embarquei numa viagem de filmes, um após o outro, que durou até passado da meia-noite. Só no hotel, bem mais tarde, lembrei-me da morte e fiquei ruminando… Salinger! Era muito jovem quando lki, no começo dos anos 1960, ‘O Apanhador no Campo de Centeio’. Salinger captou tão bem o sentimento de revolta da juventude, a sensação de sentir deslocado no mundo ‘quadradão’, que cheguei a pensar que seu personagem, Holden Caulfield, era eu. Li depois os contos com os geniozinhos da família Grass em ‘Pra Cima com a Viga, Moçada!’ e continuei achando que ele era um grande escritor. Nos anos e décadas seguintes, acompanhei a saga do misantropo das letras norte-americanas, que se afastou do convívio social e estaria escrevendo, na surdina, o grande romance de seu país. Pois a verdade é que sempre ouvi dizer que Salinger, noi seu exílio interno, nunca dreixou de escrever, embora não publicasse. ‘O Apanhador’ surgiu em 1951, antecipando um mal-estar e uma revolta da juventude – ‘transviada’ – que o cinema iria explorar largamente. Não me lembro, sinceramente, se houve uma adaptação do ‘Apanhador’, e se houve não a vi, mas a influência do filme atravessa obras importantes, incluindo ‘O Colecionador’, de William Wyler, e com certeza Gus Van Sant teve Salinger como modelo do escritor recluso que Sean Connery interpretava em ‘Encontrando Forrester’. Essa reclusão somente aumentou o mito do escritor, que ele próprio cultivava. Lembro-me da controvérsia quando aquele cara matou John Lennon e levava junto um exemplar de ‘O Apanhador’, que teria lhe dado as respostas para as interrogações que o consumiam. (Na época, produzia o programa de rádio de Tânia Carvalho na Rádio Gaúcha. Havia chegado muito cedo, pois o programa começava às 9 ou 9 e pouco, e a notícia desmontou a pauta que já estava definida. Nem dava para pensar em nada, correndo atrás de gente que pudesse falar, e refletir sobre o fato. Essa adrenalina é o que até hoje me move no jornalismo, mesmo que seja o cultural, que trabalha muito com agenda e, neste sentido, é mais tranquilo que o político ou econômico.) Mas volto ao Salinger. No hotel,. antes de vir para a sala de imprensa da Mostra de Tiradentes, li o texto com o obituário de Salinger no ‘Estado de Minas’. É assinado por João Paulo, que não conheço, mas é um belo texto, o texto que eu gostaria de ter escrito sobre ele. Ele destaca que não era só a visão de mundo que seduzia e faz, até hoje, do livro uma das obras mais publicadas do mundo. Todo ano vendem-se pelo menos 250 mil exemplares. A escrita de Salinger também é sedutora, uma simplicidade que não é pobreza nem simplificação, mas, pelo contrário, resultado de uma grande elaboração. João Paulo fala da epifania tocada por meio de gírias. Suas palavras ficaram aqui gravitando na minha cabeça e não resisti a acrescentar logo o post.