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Cultura » Salgari no cinema

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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2009 | 12h06

Só como curiosidade, entrei no IMDb e digitei, para pesquisa, ‘I Misteri della Jungla Nera’, para ver se o livro de Emilio Salgari teve alguma adaptação para cinema. Pois teve, em 1954, com Lex Barker – que havia sido Tarzan em Hollywood – na pele de Tremal-naik, direção de Gian-Paolo Callegari e Ralph Murphy. Não devo ter visto, porque com certeza me lembraria, mas em matéria de Emilio Salgari na telona meu registro se refere a outros filmes (e personagem). Meu primeiro Sandokan foi Ray Danton, num filme de Luigi Capuano, diretor que Rubens Ewald Filho ignora em seu ‘Dicionário de Cineastas’ mas o incansável Jean Tulard, em seu ‘Dicionário de Cinema’, define como ‘alegre napolitano’, esclarecendo que ele começou com c omédias sentimentais e melodramas, mas encontrou seu caminho ao se apropriar de Sandokan, de Ursus e Sansão com um deleite visível. Os Sandokan de Danton e Capuano – foram dois, ‘A Vingança de Sandokan’ e ‘Sandokan e o Tigre de Sarawak’ – datam dos anos 60 e dez anos mais tarde, por aí, o herói reviveu na pele de Kabir Bedi em ‘Sandokan e o Tigre da Malásia’, de Sergio Sollima, diretor que eu curtia, mais pelos spaghetti westerns do que pelos policiais. Sollima fez ‘O Dia da Vingança’ (ou ‘da Desforra’), com Lee Van Cleef e Tomas Milian, e o ator cubano – de Bolognini e Visconti – co-estrelou também, para ele, com Gian-Maria Volontè, ‘Quando os Brutos Se Defrontam’ (Faccia a Faccia) e o meu preferido, ‘Corre, Homem, Corre’, tendo sido ambos seguidos por ‘Cidade Violenta’, com Charles Bronson, na fase pré-‘Desejo de Matar’do cara de pedra. Não sei se vocês sabem quem foi Ray Danton, mas, para mim, ele foi o Lee Marvin que não deu (muito) certo, o que é pena, porque era – ou podia ser – bom. Danton era um duro que tinha uma voz cortante, parecida com a de Marvin. Ele apareceu em ‘A Vida Íntima de Quatro Mulheres’, de George Cukor, como o músico que estupra a ninfômona Claire Bloom, mas o título nobre de sua filmografia é um clássico de gângteres de Budd Boetticher, ‘O Rei dos Facínoras’. O grande diretor de westerns – conhecido por sua parceria com Randolph Scott – fez aqui o que Jean Tulard define como ‘maravilhosa biografia de gângster’. O personagem chama-se Legs Diamond e o filme narra sua ‘rise and fall’. Procurem informações na internet. Mais do que isso – tentem ver o filme. Um de meus mentores, em Porto, Jefferson Barros, amava ‘The Rise and Fall of Legs Diamond’ acima de todas as coisas e dizia que, mais até do Joseph Losey, que trabalhara com Brecht, Boetticher foi o diretor que realmente conseguiu criar o distanciamento crítico brechtiano no cinema, e num filme de gênero, de ação. Um desafio e tanto.