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Luiz Carlos Merten

18 Junho 2010 | 12h19

Coco le Martiniquais realiza sua dança lasciva. Ela permanece um dos momentos mais secretos do cinema. Está no filme ‘Un Chant d’Amour’, o único realizado pelo dramaturgo Jean Genet, em 1950. Só para constar, naquele tempo o homossexualismo era condenado como desvio sexual e uma pesada censura afligia os artistas que ousavam encarar o tema da sexualidade, não apenas homo. O próprio ‘O Amante de Lady Chatterley’, de D.H. Lawrence, teria de esperar mais dez anos para vir a público livremente. Passaram-se 70 anos e o canto de amor de Genet finalmente está para sair no Brasil, em DVD, pela Magnus Opus. Havia gente em suspense, à espera deste momento que agora chega. Há um mito de Genet. Delinquente, homossexual, ladrão e presidiário, ele virou personagem de Jean-Paul Sartre em ‘Saint Genet, Comédien et Martyr’, mas quem melhor o desvendou (ou tentou…) desvendá-lo foi um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Jean-Bernard Moraly, o que não deixa de encerrar um paradoxo, porque Genet foi um declarado antissemita que, ao morrer, em 1986, deixou um volumoso e apaixonado panfleto em favor da causa palestina (‘O Cautivo Enamorado’). Nem por isso Moraly deixou de se enamorar do seu gênio. Sua tese (de Moraly) é que nunca ninguém conheceu Genet, que ele se escondeu atrás da própria lenda e forjou uma persona indecifrável à base de mentiras instituídas. O mito de um Genet analfabeto e autodidata foi por terra. Abandonado pela mãe, o menino foi recolhido pela assistência pública e entregue a uma família de camponeses. Eles o amaram, deram-lhe instrução e o garoto Genet, além de bom aluno, foi leitor contumaz. Mas são verdadeiras as histórias de que desertou do Exército e foi preso, como vagabundo e homossexual. A experiência na cadeia foi decisiva. Genet emergiu dela para se autodefinir como o ‘intérprete do resíduo humano’.  Elegendo ladrões, prostitutos e travestis como heróis, seus escritos, peças e romances, falam de um mundo subterrâneo que recusa o reconhecimento social. Os gays de Genet não andam de mãos dadas em passeatas, não tentam reproduzir o modelo hetero. Sua opção é pelo mal e ele mergulha no inferno dos pensamentos reprimidos para resgatar o desejo, que não é só de sexo, mas de poder. ‘Nossa Senhora das Flores’ é exemplar. No fim dos anos 1940, era vendido clandestinamente e considerado livro de sacanagem, bem antes de ser adotado em escolas. O título, com sua conotação religiosa, refere-se ao apelido de um jovem gay, ladrão e assassino. A rainha travestida do bas-fond de Pigalle chama-se Divina, seu amante é Gabriel (como o Arcanjo) e o romance se oferece ao leitor como uma coletâsnea de cenas de sexo homossexual, reais ou sonhadas por um narrador que se masturba dentro de uma cela de prisão. A cadeia é a obsessão de Genet. Nunca vi ‘Un Chant d’Amour’, mas há décadas ouço descrições do filme. Dois prisioneiros, cada um na sua célula, conseguem se comunicar por meio de um buraco na parede, sob o olhar de um guarda. Realizam um contato erótico – amoroso? – por meio da troca de objetos (um cigarro) ou do toque das mãos. Como em ‘Nossa Senhora das Flores’, a subversão de Genet vem menos da amostragem grosseira do que de sua transfiguração pela magia verbal – e, no caso do filme, garantem seus admiradores, visual. Ia escrever ‘audiovisual’, mas até ontem sei ‘Un Chant d’Amour’ nunca teve uma ‘trilha’. Não me resta mais muitos filmes ‘míticos’ para descobrir. Adolescente, lembro-me como foi assistir a ‘L’Age d’Or’, de Buñuel. Muitos anos depois, nem lembro quando, foi ‘Limite’, de Mário Peixoto. E ainda ‘Salt of the Earth’, do blacklisted Herbert Biberman, sobre uma greve de mineiros no Novo México, que não vale sua reputação. Ainda me resta o célebre filme que Visconti rodou sobre o massacre das Fossas, como é mesmo que se chamavam? Adeantinas ou Ardeatinas?, integrado ao movimento da Resistência italiana, durante a 2ª Guerra. Não sei nem se ‘Dias de Glória’ – é o título, não? – realmente existe. No caso de ‘Un Chant d’Amour’, estamos a um passo de poder decifrar esse enigma.