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Luiz Carlos Merten

17 Maio 2008 | 09h32

CANNES – Preciso correr para a coletiva de Woody Allen e Penelope Cruz, mas não resisto a tentar acrescentar este post, que já havia perdido antes. Estou tendo de redigir de novo. Há pouco, estava sentado ao lado de Flávia Guerra, aqui na sala de imprensa do festival, e conversamos sobre o sentimento de melancolia que experimentamos ao assistir a ‘Linha de Passe’. Isto tem, claro, a ver com o tema da ‘orfandade’, que se constitui numa busca do cinema de Walter Sallres (com ou sem Daniela Thomas), mas é particularmente forte em ‘Linha de Passe’. O filme ainda não tem distribuidor para o Brasil. Anna Luiza Müller, que faz assessoria para Walter (e para a Videofilmes) diz que a estréia é para o segundo semestre, mas quando? Esperemos. Vou voltar a ‘Vicky Christine Barcelona’, para comentar uma coisa que me escapava. Achei divertida a cena do primeiro encontro de Javier Bardem (ele faz um pintor) com as personagens de Scarlett Johanssen e Rebecca Hall. Javier chega na cara dura e, de forma muito honesta, convida as duas para irem a Oviedo com ele, para tomar vinho, ver uma escultura que o inspira e dormir junto. Bem, na verdade ele não está pensando em dormir… Achei a cena descarada, mas depois percebi que o partido de Woody Allen era a facilidade. O macho espanhol é uma fantasia de Hollywood que ele explora. Me lembrei do James Ivory, em ‘Surviving Picasso’. Ivory, sendo um cineasta ’empenhado’ mas, no fundo, mediano, não entende o gênio e fez aquele filme que mostra Picasso como um monstro para suas mulheres. Vou enfiar o pé na jaca, mas sempre achei que aquele filme transpira o ressentimento de Ivory pela potência (viril e criadora) de um artista que é mil vezes melhor do que ele. Aqui, Woody Allen insiste no estereótipo, e isso me incomodou. Woody está saidinho. Filma cenas calientes de Javier com Scarlett Johanssen e até uma cena des lesbianismo de Scarlett com Penelope, que as duas fazem no piloto automático. Eu, pelo menos, não consegui acreditar em nada daquilo, em nenhum momento. Quando escrevi ontem que o filme era imoral, em oposição aos contos morais de Eric Rohmer, não era por essas cenas, mas pelo que me pareceu uma falta de ética muito grande face à mundanidade e frivolidade que Woody Allen adotou. Espero, sinceramente, não me arrepender desses juízos críticos quie estou sendo – como todo mundo, aqui – forçado a fazer. Em Cannes, não se tem tempo de deglutir nada. Você assiste a um filme – os da competição são obrigatórios para a gente, que faz a cobertura do evento -, mas sabe que, na mesma hora, poderia ter escolhido pelo menos outros dez. Não estou me desculpando e até sei que vocês adoram o cara, mas Woody Allen, obrigado, estou fora.

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