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Luiz Carlos Merten

05 Fevereiro 2008 | 07h00

BARCELONA – Ontem foi um dia de emoções muito intensas aqui em Barcelona. Pela manhã, fui visitar as casas Battlò e Milá, obras maiores do gênio de Antonio Gaudí. Como ex-estudante de arquitetura, sempre fui fascinado pelo mestre catalão. Uma notícia biográfica que li aqui conta que, quasndo ele formou, aos 26 anos, o professor que lhe outorgava o diploma teria tudo – “Não sei se habilitamos um gênio ou um louco.” Talvez ele fosse um pouco as duas coisas. Era um visionário, com certeza. Andar pela Casa Battlò, que os catalães chamam de ‘Casa dos Ossos’ por sua estrutura; visitar o apartamento mobiliado da Casa Milà, ou La Pedrera, é como andar pelo interior de uma escultura. Gaudí trabalhava o espaço, o movimento como um arquiteto e um escultor, mas ele nubca descuidou da praticidade de suas criações. Ao contrário da obra de outros arquitetos/escultores (Niemeyer?), a dele é para ser habitada. Os detalhes que ele criou para tornar suas casas mais habitáveis, em matéria dee iuluminação e ventilação, são simples, funcionais e, ao mesmo tempo, sacadas de gênio. mas o que mais gostei foi de um filme que situa Gaudí em sweu contexto histórico e social. Ele teve a sworte de chegar a Barcelona numa época em que a cidade era confrontada com a modernidade, por meio de feiras mundiais. Havia uma burguesia endinheirada disposta a pagar pelas, digamos, excentricidades do grande artista. Para a Casa Battlò, vejam na internet, ele criou uma maquete, não plantas, conduzindo pessoalmente as obras e orientando carpinteiros, pedreiros e outros profissionais para o que queria fazer. Barcelona acolheu/criou Gaudí e agora ameaça destruí-lo. A igreja da Sagrada Família, 82 anos deepois da morte de Gaudí – atropelado por um bonde, em 1926 -, permanece inacabada. É um work in progress, um imenso canteiro de obras porque o arquiteto queria que ela fosse construída com doações populares. Pois a Sagrada Família – nunca houve nem haverá uma igreja como esta; Gaudí era ecologista antes que existisse o conceito; queria que sua igreja fosse, internamente, como uma floresta, inspirando-se em árvores e folhas para criar sua estrutura e decoração – está agora em perigo. A municipalidade de Barcelona, que no passado sustentou Gaudí, está agora construindo um túnel para um trem de alta velocidade cujo muro vai passar a menos de um metro do início das fundações do prédio imponente. A comissão que leva a construção da Sagrada Família tentou modificar o traçado do túnel, com medo de que o impacto seja prejudicial à obra de Gaudí. Não conseguiu. Tudo pela modernidade. Ele, que foi um produto dela, agora poderá ser destruído em nome do progresso. Exagero, talvez. Espero que nunca aconteça, mas temos aí um interessante material para reflexão. É de manhã, aqui em Barcelona (três horas antes no Brasil). Vou sair para tomar café e dar uma volta. Tenho de enviar hoje a matéria de abertura do Festival de Berlim, na quinta. Quero ir ao Parque Guell, uma cidade/jardim concebida por Gaudí, andar de teleférico. E preciso comentar com vocês o final cut de ‘Blade Runner’ e ‘Cassandra Dreams’, de Woody Allen, que prossegue com a análise de crime e castigo, de crime sem castigo, de ‘Match Point’.