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Cultura » Russell, o enfant terrible apaga-se aos 84 anos

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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2011 | 17h55

Mal cheguei de volta ao Brasil, e à redação do ‘Estado’, e o Bira, meu colega e editor, Ubiratan Brasil, foi logo me informando da morte de Ken Russell. Que coisa! Há tanto tempo não se falava no enfant terrible do cinema inglês por volta de 1970. Ele voltou com tudo graças ao lançamento em DVD de ‘Mulheres Apaixonadas’, sobre o qual falamos aqui no blog. Ken Russell morreu ontem, domingo, aos 84 anos, no hospital em que estava internado, em Londres. Um enfant terrible que se apaga octogenário… Russell é a prova de que as provocações fazem bem à saúde. Veio longe, o cara, mesmo que outro diretor, Michael Winner, tenha informado de que sofria, há tempos, de uma doença terrível, sem dizer qual era. ‘O Cérebro de Um Bilhão de Dólares’, ‘Mulheres Apaixonadas’, ‘Os Demônios’ e todas aquelas cinebiografias – ‘Delírio de Amor’, sobre Tchaikovski, ‘O Messias Selvagem’, sobre Henri Gaudier-Brzeska, ‘Mahler, Uma Paixão Violenta’, ‘Lisztomania’, ‘Valentino, o Homem e o Mito’ etc. Tudo isso e mais ‘Gothic’, sobre a noite em que Mary ‘Frankenstein’ Shelly e o dr. Polidori, de ‘Vampyr’, foram desafiados a escrever seus clássicos de terror. Pode ser que Russell tenha se esgotado ao levar ao limite sua tendência ao barroco, que se manifestava por meio do estilo retumbante, em que os sonhos de seus personagens se esboroavam em choque com a realidade. Mas, numa época de liberação – estética e comportamental -, poucos, como ele, expressaram um imaginário tão voltado aos temas do sexo (e do homossexo, mas não apenas). Curioso é que, quando escrevi o post sobre ‘Mulheres’ (e D.H. Lawrence), deixei de acrescentar que gostaria muito que ‘Os Demônios’ também saísse em DVD. O filme baseado no caso das freiras possuídas de Loudun já havia inspirado o livro de Aldous Huxley e o clássico polonês ‘Madre Joana dos Anjos’, de Jerzy Kawalerowicz. Na época, a censura do regime militar colocou Ken Russell no índex e o filme foi banido. Assisti-o não me lembro se em Montevidéu ou Buenos Aires, quando ainda vivia em Porto Alegre e a gente fazia excursões para ver, no Prata, muitos filmes proibidos no País. Há um filme de Russell que não se pode deixar de lembrar. Não, não é ‘Tommy’, baseado no ópera-rock do The Who – pelo menos para mim -, e sim, ‘Crimes de Paixão’, aquela bizarra mistura de ‘Psicose’ e ‘Bela da Tarde’, com Anthony Perkins e Kathleen Turner. Estou redigindo o post às pressas porque me chamam para a reunião de pauta. Prometo voltar a Ken Russell. Fica essa abordagem rápida para dar conta da morte do diretor inglês. Ao chegar em casa, vou ver se localizo aquele livro que comprei sobre ele e que destaca o caráter ‘fálico’ das criações de Russell.