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Rumo ao ‘Éden’

Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2012 | 15h27

RIO – Não sei se vocês me abandonaram ou se foi uma coisa que ocorre com frequência no blog.Os comentários entram como em,-mails e minha caixa esteve lotada por dias. Não conseguia tempo para postar, que dirá para limpar 2 mil e-mails. Tenho tido matérias diárias no ‘Caderno 2’, somadas a filmes da Première Brasil e a outros que tenho de ver por causa de entrevistas, tudo isso e mais a mediação dos debates. Tenho tido algumas experiências viscerais, das quais quem me acompanha no jornal, diariamente, já deu conta. Amei o Kim Ki-duk, aliás, não sei se é a melhor definição, porque, na verdade, ‘Pietà’ me perturbou muito. Assisti ao filme nas quarta à noite e, na manhã seguinte, vi ‘Marina Abramovic – Artista Presente’, que foi seguido de um encontro com a própria Marina. Lembrei-me de Erico Verissimo, o grande, em ‘O Tempo e o Vento’. O cético Tio Bicho comenta o efeito que causou, acho que em Vasco, a visão da Passionária, quando o revolucionário que foi lutar ao lado dos republicanos,na Espanha, viu a mulher que se tornou um símbolo de resistência discursar. Vasco é ateu, mas seu relato é tão intenso que Tio Bicho diz que é como se ele estivesse falando de uma visão de Nossa Senhora. Senti-me assim diante de Marina. Na sua performance no MoMa, as pessoas sentavam-se diante dela, em silêncio. Neste mundo louco, corrido, ela propunha a parada, a concentração. Muitos choravam. Eu lhe disse que queria ficar em silêncio. Ela respondeu – ‘Fiquemos.’ Mas eu tinha uma entrevista para fazer. Comecei falando de ‘Pietà’ e do Leão de Ouro que o filme ganhou em Veneza. Marina integrava o júri presidido por Michael Mann. Desandou a falar. Disse que foi guerreira na premiação de ‘Pieta’ – ela não acentua o A final. A conversa foi ótima. Eu disse que a achava cabotina, exibicionista, mas isso foi antes de ver o filme e me sentar diante dela.Existem experiências que são enriquecedoras, transformadoras. Aqueles 25 minutos – a assessora disse que foram 22 – podem não ter mudado minha vida, mas certamente me produziram uma euforia que nem consigo explicar. Marina me contou da xamã que, aqui no Brasil, lhe disse que era um ser de outra galáxia que tinha vindo à Terra para confrontar as pessoas com seu sofrimento. Depois da entrevista com ela, fiquei um tempo andando sem centro aqui pelo Armazém da Utopia, onde estou agora.E fui ver ‘A Busca’, de Luciano Moura, com Wagner Moura. Amei o filme sobre a busca que um pai faz ao filho que caiu na estrada. É o melhor papel do Wagner, foi um filme que me deixou siderado. Os filmes que fazem sucesso no cinema brasileiro, sucesso de verdade, ou são violentos como ‘Cidade de Deus’ ou espetaculares como ‘2 Filhos de Francisco’, por mais que o recorte seja intimista (a relação entre pai e filho). Talvez seja o grande tema do cinema brasileiro da Retomada. Pensem em quantos filmes. ‘Bicho de Sete Cabeças’, ‘2 Filhos de Francisco’, ‘Gonzaga’, ‘O Palhaço’ e tantos outros. falei em filmes violentos ou espetaculares, ‘Tropa’ é violento e espetacular – e o 2 também trata de pai e filho.O que quero dizer é que sou achar que o Brasil tem mesmo uma indústria, ou que o cinema brasileiro tem uma relação forte com seu público, quando um filme como ‘A Busca’ superar a barreira do milhão, dos 2 milhões, dos 5 milhões. Sua universalidade me apanhou – me golpeou. Tanta coisa que ainda quero falar. Sobre a animação do Luiz Bolognesi, que me emocionou tanto. Sobre a entrevista que fiz há pouco com Luiz Puenzo, produtor de ‘Infância Clandestina’, que é o representante argentino na disputa de uma vaga no Oscar. Puenzo, que liderou a comissão que criou A lei de CInema na Argengina,me explicou como as produções são parcialmente subsidiadas, mas como parte do dinheiro também vem de empréstimo, que produtores e diretores têm de ressarcir. E ele disse uma coisa que me calou fundo – o cinema tem de ser uma atividade de risco. No Brasil, não é. O dinheiro é subsidiado, o patrocínio vem da renúncia fiscal. Ninguém perde. Talvez seja o medo ou a responsabilidade deperder que faça a grandeza do cinema argentino, e o seu comprometimento com a classe média que ele reflete na tela. Estou aqui na feijoada do Festival do Rio. Já tomei uma caipira. Lá vou enfiar o pé na jaca. Vi na banca a capa de ‘Veja’. A revista já tinha endeusado o ministro Barbosa, do Supremo. Agora, o coloca como o menino pobre que vai salvar o Brasil. Barbosa pode até ser essa figura, mas não é um personagem fordiano. Não tem grandeza. Se tivesse, e até pelo cargo – Spencer Tracy em ‘O Último Hurra’ -, não estaria se prestando a esse papel para a revista que não prega prego sem estopa. Havia sido convidado para a junket de ‘Cavalo de Guerra’. Fui desconvidado porque ‘Veja’ exigiu exclusividade na cobertura do filme de Steven Spielberg. Tudo bem, não gostei menos do filme por isso, mas se eles jogam pesado assim na área de variedade – liberdade de imprensa o caralho, o que querem é o monopólio -, como não jogam no resto? Lá vou eu para o ‘Éden’. O filme. Na sequência, tenho debate que vocês poderão acompanhar na rede, no site da PUC Rio.